Pouso

Pousei por livre vontade
na palma da sua mão
E agora você decide
se é liberdade ou prisão.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Aprimeiravistamente

Ele olhou para o mar e por um instante cheguei a ver em seus olhos o desenho das ondas, numa batida tão sincronizada e perfeita que parecia me hipnotizar. Senti um sono repentino, vontade de fechar os olhos e adormecer ali. Senti-me como que convidada pelo passear das ondas naqueles olhos castanhos e, de repente, mais que convidada... intimada, obrigada, dominada. Por mais duro e inalcansável que meu coração pudesse ser, nada do que é concreto resiste ao que é abstrato.
Como de costume, repudiei qualquer chance de amor que me chegava, porém aquele sorriso merecia qualquer nova chance que lhe pudesse ser dada! Inocente, entregue, sem mim.
As palavras me sumiram e dali por diante, certamente, indiscutivelmente, inacreditavelmente, aprimeiravistamente, eu só conseguiria viver se fosse naqueles olhos. Admirada com aquele rosto tão vivo, com uma sorte de cores quis ser plateia, plateia somente, plateia de um artista só, plateia morta como toda e qualquer existência que eu possa ter.
Esqueço de pensar em realizar qualquer ação. Já posso sentir, estou acordando.
Já posso sentir um calor breve que sua meu corpo e acende o desejo de não acordar daquilo... Não. Ainda um pouco. Ainda o que mais importa. Ainda o que me falta.
Preparei-me, olhos forçadamente cerrados, boca seca, mãos suadas, coração disparado, vi-o aproximar-se, passar a mão por meus cabelos, pousá-la em minha nuca, trazê-la lentamente de volta até meus olhos e, num gesto de mago ou qualquer coisa que eu desconheça, fechá-los. Senti seus dedos contornarem minha boca. E, de repente, nada.
Acordo.
E ainda acordada, ainda que não soubesse se enquanto acordava dormia ou se enquanto dormia acordava,  sei que nessa vida, nessa vida dos homens e das coisas que os homens inventaram, ouvi sua voz me dizer: "Você perdeu um beijo, Maria, e terá de vir buscá-lo."
Lembrei-me de pouco, não sei se no sono ou na luz, sei que fui. Inocente, entregue, sem ti.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Maria Rejeitadinha rejeita as cenas do Natal

Maria Rejeitadinha esteve a observar
Como resolveram os outros
O Natal comemorar.
Sem saber o que é Natal
Maria foi descobrir,
Saiu às ruas, foi procurar
Onde estava o velhinho
De que tanto ouviu falar.

Pegou suas trouxinhas
Barriga vazia, panela na mão
Lá vai Maria
Desvendar esse mistério
Que viu na televisão.

Saiu pelas ruas a tal de Maria
Meia-noite, meia-vida
Tudo era escuridão
Achou! Achou um velhinho
Barba branca, sacolão
É ele! É ele!
É o velhinho dos presentes.
Foi então que o velhinho
Jogou o saco no chão
Apanhou uma latinha
Com um suspiro exausto
Largou a lata no saco
E continuou sua missão.

Maria Rejeitadinha a testa logo franziu
Ora que mentira mais besta
Era a do bom velhinho!
Então, o Natal não tem
Velho bondoso e presentinho?

Não perdendo as esperanças
Maria continuou
Ouvira falar de uma família
Que por muito caminhou
E que numa manjedoura
Um milagre foi criado
Era amor, vida e paz
Um bebê iluminado.

E lá vai Maria
Anda, anda, olha e cansa
Até que, finalmente!
Achou! Achou a família!
Um homem simples
Uma mulher humilde
Velando o sono de um menino
Repousado numa caixa de papelão
Eram eles, só podia
Ficou olhando Maria
Atenta, esperava a chegada dos três magos
Mas, epa!
De repente, o menino a chorar
O pai, sem paciência,
Manda-lhe com um tapa calar
A mãe nem se comove
Nem se mexe do lugar
E Maria revoltada:
Ora bolas, que agonia
Será que aquela família
Também não existiria?

Mas Maria ouviu dizer
Que havia alegria
Em todo lugar do mundo
Naquela noite de magia
Não entendia, que decepção
No mundo dela não existia
O mundo da televisão!

Maria andou ainda
Sem destino a encontrar
Uma figura de vermelho
Ilustrava um imenso painel
E Maria entendeu
Quem era Papai Noel
Nada mais do que somente
Um desenho no papel.

Maria andava mais
Incansável, avistou muita luz, muita cor
Chegou perto e admirou
Bonecos em gesso, bem pintados
Que beleza!
José, Jesus e Maria
Estátuas tão bem feitas, olhem só!
E, na cabeça de Maria
O Natal foi desvendado
No seu mundo rejeitado
Tudo aquilo que disseram que era mágico
Foi apenas inventado.

Do começo ao fim

Pra você não estar só
Nunca estar abandonado
Pra eu não esquecer de te dizer
Que o meu primeiro pensamento
Até o último é você.

Versos para lembrar
As letras caladas que eu compus
Brisa de pássaro a me levar
Olhos ciganos a me encantar
Meus olhos nos teus: luz.

Vida, você é conforto
Das horas em que não vale a asa viver
Vida, você é luz
Você é a melhor ideia,
o melhor dia!
Você é a melhor sensação!

Vida, melhor que o melhor dos tesouros
Mais forte que a mais forte das correntezas
Mais verdadeiro que o mais puro ouro
Você é a supremacia de todas as coisas.

A vaidade

Maria Rejeitadinha não sabe como ser bonita para os outros, tem medo até dos cabelos e se esconde do espelho. Maria Rejeitadinha não gosta de vaidade, prefere ver além do espelho.

Olha, eu preciso te dar um espelho
Um espelho de você
Espelho que te revele, que te faça descobrir
A beleza que existe
Nos teus olhos a sorrir.

A beleza que está
No suor do teu pensar
Nas tuas horas de entrega...
O belíssimo que reside
Não nos teus cabelos lisos
Mas na transparência do teu ser
No que você pensa fazer.

Tal beleza que ninguém vê
Se não reflete no espelho de você
Olha, não é feio,
Não é velho, não é seco, nem armado
Olha, não é gordo, nem é magro
Não está do tamanho errado.

Olha nos olhos do te reflexo
Não está fora do lugar
Se um dia houver de aumentar
Que aumente mais o pensar.

Que o teu amor engorde
E tua tristeza emagreça
Que a tua felicidade tenha as luzes mais perfeitas!

E que teu reflexo apareça
Sem sombra ou outra pintura
Que cubra teus olhos tão cheios
De vida e de grande ternura...

Olha do teu íntimo
Teu reflexo tal qual o Narciso
Brilha no teu palco como Quixote!

Quebra o vidro do espelho concreto
Abre a porta do reflexo abstrato
Estica, encolhe, aumenta, diminui
Pinta, corta, tinge, brilha
Pensa, entende, age, faz
Ama, sonha, amadurece, vive.

Inútel



Era quase um novo dia. O silêncio das ruas já dominava a madrugada. Gritos.
Enquanto eu trabalhava, com toda a minha soberba pobre riqueza, em frente a uma tela que é muito mais atraente que qualquer silêncio da madrugada ou que qualquer coisa lá fora, a tevê estava ligada... um famoso seriado americano me divertia. Desfrutava naquele instante, da mais vaidosa das vaidades humanas, poder anular a vida real inventando uma realidade virtual e poder pagar uma televisão a cabo.
Gritos.
Uma voz fez estremecer todo o meu corpo gritando por socorro. Não eram pedidos raros, eram gritos sucessivos de socorro, “Socorro! Socorro! Socorro! Socorro! Socorro!”. Gritos que quebraram o silêncio e sacudiram a vizinhança.
Como minha imaginação alcança quilômetros em frações de segundo, imaginei um estupro, um assalto à mão armada... cheguei até a ouvir tiros e a ver um corpo estirado no chão. Não.
Como todo o resto do condomínio, fui até a sacada e ali me deparei com o autor dos gritos. Uma criança, que sinceramente não pude distinguir o sexo, uma criança com trajes maltrapilhos, gritando incessantemente por socorro. Sua ameaça? Um homem descamisado, de bicicleta que repetia incansavelmente “Na hora de me roubar foi bom, né?” e atirava pedras na criança.
A vizinhança assistia ao espetáculo. E somente assistia. Homem e criança cambaleavam ao redor de um carro. Pedra na mão, grito na boca. Socorro, socorro, socorro, socorro. E a multidão assistia de pé à tragédia brasileira, vida mal vivida ao vivo show.
A criança cansou de pedir socorro, disparou uma corrida. O homem, incansável, impiedoso, foi atrás com a bicicleta. Que teria feito aquela criança para ser apedrejada por aquele homem? Ora, o correto não é que só atire pedras aquele que não tem pecado algum? Um roubo, ao que parecia. Um roubo de quê? Que teria aquele homem, à meia-noite, sem camisa, na rua, com voz bêbada de tão valioso que não pudesse ser dividido com aquela criança?
Entrei em casa com ânsia de vômito. Talvez meu corpo quisesse colocar pra fora toda a minha covardia. Vi, do alto, da sacada do condomínio, ao lado de pessoas tão covardes quanto eu, uma criança ser apedrejada. Ouvi seus gritos de socorro incessantes e repetidos. Vi, ouvi e assisti. De posição privilegiada. Quanta covardia! Depois de nada fazer por aquela criança, penso como tantas outras crianças, com tantos outros gritos de socorro passarão pela minha vida e eu lhes assistirei, de cima, como ser superior a elas que pareço ser. Sim, que pareço ser. Porque aquela criança que talvez tenha roubado para comer, aquela criança que recebeu pedradas na minha frente e colocou suas pernas infantis para se defender de uma bicicleta adulta... aquela criança é superior a mim. Porque aquela criança não parou para assistir a minha covardia. Aquela criança não parou para se olhar, não parou para ter pena de si. Aquela criança agiu. Pediu socorro, correu, lutou.
Os gritos ainda estão em meus ouvidos, a imagem ainda está nos meus olhos, que têm a estranha mania de fotografar tudo. Onde estará essa criança agora? Terá sido alcançada? Terá sido ouvida pelas outras ruas e avenidas por onde passou? Terá sido surrada? Terá sido acolhida? Quantas pedradas mais levou? Não sei. Sei de mim, que estou aqui. De mim, que sou responsável por cada gota de sangue que aquela criança vá sangrar hoje. De mim que assisti, como se visse um filme cujo roteiro não posso mudar.
Quanta covardia. Quanta ignorância. Que existência mais falsa, mais repugnante e infeliz! Ser expectador em um mundo que precisa de ajuda é ser inútil. A gente somos inútel, não é assim?

Currículo Rejeitadinho

Era a Maria Rejeitadinha
Só mais uma das Marias
Que ninguém amaria
Que ao mundo viria
Por acidente ou acaso
Por desespero ou magia.

Chegava tarde
Saía cedo
Tinha medo dos cabelos
Tinha um torto no andar.

Olhava-se no espelho
Via o sonho e o medo
Os teus olhos assombrar.

Amigos, nem virtuais
Só siderais e imaginários
Conversas e brincadeiras
Só com o monstro do armário.

Maria Rejeitadinha
Que a família não gostava
A professora castigava
Colega de sala apelidava
Padre não abençoava
Caridade não ajudava.

Era a Maria Rejeitadinha
Que livro não tinha pra ler
Pão não tinha para comer
Nada para aprender.

Até o dia que Maria
Achou alguém que te amou
Alguém que a todos abraçava
Sem distinção de palavra, raça ou cor
Foi Maria arrastada
Foi Maria abraçada
Feliz, dominada, sorridente, flutuava
Tchau, Maria
Vai sem medo
Que o mar não rejeita ninguém.