Pouso

Pousei por livre vontade
na palma da sua mão
E agora você decide
se é liberdade ou prisão.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Inútel



Era quase um novo dia. O silêncio das ruas já dominava a madrugada. Gritos.
Enquanto eu trabalhava, com toda a minha soberba pobre riqueza, em frente a uma tela que é muito mais atraente que qualquer silêncio da madrugada ou que qualquer coisa lá fora, a tevê estava ligada... um famoso seriado americano me divertia. Desfrutava naquele instante, da mais vaidosa das vaidades humanas, poder anular a vida real inventando uma realidade virtual e poder pagar uma televisão a cabo.
Gritos.
Uma voz fez estremecer todo o meu corpo gritando por socorro. Não eram pedidos raros, eram gritos sucessivos de socorro, “Socorro! Socorro! Socorro! Socorro! Socorro!”. Gritos que quebraram o silêncio e sacudiram a vizinhança.
Como minha imaginação alcança quilômetros em frações de segundo, imaginei um estupro, um assalto à mão armada... cheguei até a ouvir tiros e a ver um corpo estirado no chão. Não.
Como todo o resto do condomínio, fui até a sacada e ali me deparei com o autor dos gritos. Uma criança, que sinceramente não pude distinguir o sexo, uma criança com trajes maltrapilhos, gritando incessantemente por socorro. Sua ameaça? Um homem descamisado, de bicicleta que repetia incansavelmente “Na hora de me roubar foi bom, né?” e atirava pedras na criança.
A vizinhança assistia ao espetáculo. E somente assistia. Homem e criança cambaleavam ao redor de um carro. Pedra na mão, grito na boca. Socorro, socorro, socorro, socorro. E a multidão assistia de pé à tragédia brasileira, vida mal vivida ao vivo show.
A criança cansou de pedir socorro, disparou uma corrida. O homem, incansável, impiedoso, foi atrás com a bicicleta. Que teria feito aquela criança para ser apedrejada por aquele homem? Ora, o correto não é que só atire pedras aquele que não tem pecado algum? Um roubo, ao que parecia. Um roubo de quê? Que teria aquele homem, à meia-noite, sem camisa, na rua, com voz bêbada de tão valioso que não pudesse ser dividido com aquela criança?
Entrei em casa com ânsia de vômito. Talvez meu corpo quisesse colocar pra fora toda a minha covardia. Vi, do alto, da sacada do condomínio, ao lado de pessoas tão covardes quanto eu, uma criança ser apedrejada. Ouvi seus gritos de socorro incessantes e repetidos. Vi, ouvi e assisti. De posição privilegiada. Quanta covardia! Depois de nada fazer por aquela criança, penso como tantas outras crianças, com tantos outros gritos de socorro passarão pela minha vida e eu lhes assistirei, de cima, como ser superior a elas que pareço ser. Sim, que pareço ser. Porque aquela criança que talvez tenha roubado para comer, aquela criança que recebeu pedradas na minha frente e colocou suas pernas infantis para se defender de uma bicicleta adulta... aquela criança é superior a mim. Porque aquela criança não parou para assistir a minha covardia. Aquela criança não parou para se olhar, não parou para ter pena de si. Aquela criança agiu. Pediu socorro, correu, lutou.
Os gritos ainda estão em meus ouvidos, a imagem ainda está nos meus olhos, que têm a estranha mania de fotografar tudo. Onde estará essa criança agora? Terá sido alcançada? Terá sido ouvida pelas outras ruas e avenidas por onde passou? Terá sido surrada? Terá sido acolhida? Quantas pedradas mais levou? Não sei. Sei de mim, que estou aqui. De mim, que sou responsável por cada gota de sangue que aquela criança vá sangrar hoje. De mim que assisti, como se visse um filme cujo roteiro não posso mudar.
Quanta covardia. Quanta ignorância. Que existência mais falsa, mais repugnante e infeliz! Ser expectador em um mundo que precisa de ajuda é ser inútil. A gente somos inútel, não é assim?

Um comentário:

  1. Sua narrativa nos permite uma reflexão sobre os nossos atos, sobre o nosso papel ante a realidade. Mais uma vez está d parabéns!

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