Pouso

Pousei por livre vontade
na palma da sua mão
E agora você decide
se é liberdade ou prisão.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

26 de fevereiro

- Não sei amar sem dar a vida e, a cada vez que experimento amar, perco um pouco de minha vida por aí... e, daqui a pouco, eu não vou ter nada, nadinha mesmo, porque já me resta pouco.
- O pior que é assim mesmo. E eu me quero pra quê? Você se quer pra quê?
- É... Pra que viver para sempre confinada em mim, não é? Mas... quando todo mundo for embora, eu tenho que ter a mim! Se não, a quem mais eu vou ter?
- A mim.
- Mesmo quando eu estiver sem nenhum amor e sem nenhuma poesia pra você? Mesmo quando eu estiver tão destruída que não restar mais nenhuma sombra de vida em mim?
- Mesmo quando você for só carcaça. Não deixará de ser você e é isso que importa. Estava vendo tudo morto... e a única coisa que ainda me fazia sentir paz era a música e o livro que carrego. Você está me fazendo bem, não vá embora.

"Próprio de dias nublados e carregados de saudade."

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

E um silêncio servindo de amém

Eu não sei  bem em nome de quem a gente faz um pedido desses. Mas, mesmo assim, eu quero fazer. É, na verdade, um pedido até egoísta, porque eu já não aguento mais estar diante de tanta crueldade, tanta má notícia, tanta barbaridade. Não sei expressar ao certo quantos de meus dias já foram estragados a partir do momento em que eu li um jornal ou assisti a um noticiário. Isso me indigna, me faz sentir monstro no meio de monstros; talvez por ficar calada e sair para realizar meus sonhos, depois de ouvir no rádio que no Pará uma criança de 8 anos foi baleada na cabeça no meio de uma guerra de traficantes que disputavam um ponto de venda. Ou ainda depois de saber que em Goiânia uma criança de 3 anos foi vítima de estupro e tentativa de homicídio. A gente sai de casa sorrindo tão naturalmente... mesmo depois de ver a foto do rapaz que foi espancado até a morte em Florianópolis. Porque era homossexual. Mentira. Não é porque ele era homossexual e também não  foi porque aquele rapaz morto a pauladas e pedradas era negro. Até quando a gente vai procurar justificar a violência que não tem justificativa? Não se mata ninguém pelo que ele é, se mata pelo que nós somos! Ou queríamos ser. A intolerância não é causada pela vítima, parem de dizer que o culpado de uma morte é o morto!
Eu não sei. Não sei bem o que quero dizer. Mas, hoje uma sensação me tomou às sete da manhã, ao ouvir as notícias no rádio: Estamos perdidos. Não havia boas notícias. Sei que muita gente morreu ontem e muita gente está morrendo por aí, agora. Alguns estão sendo machucados, como um ser humano que levou 38 pontos no rosto, graças a golpes de navalha, porque existe alguém no mundo que acha que ser travesti é errado, mas matar não. Também tem um menino, que ainda este mês - enquanto você ficava enraivecido porque o programa do Faustão não está tão bom ou porque seu time está mal no campeonato - foi vítima de violência sexual aos 7 anos. E isso não te amedronta, isso não tira sua alegria de viver. É tão natural.
Morreu porque é gay, morreu porque é negro, apanhou porque é mulher... parem! Será que ninguém enxerga que a grande causa mortis desse mundo é a falta de respeito pela vontade e condição do outro? Desculpem. Desculpem se isso tudo parece sem fundamento ou causa aparente. Mas não dá pra sair de casa todos os dias com um sorriso estampado no rosto, sabendo o que acontece com as pessoas por aí. Pessoas como eu, como meus amigos e minha família. Sabe com que me preocupo? - e por isso falei no começo que era um apelo egoísta - Me preocupo com o dia que a bala vier na minha direção. Na direção de alguém que amo. Me preocupo com o dia em que alguém de quem gosto estiver passando na rua, indo comprar um pão e de repente ser vítima de uma vontade louca de matar de qualquer um. Assim por nada, como aconteceu com o garoto do Bairro América. Sabem? A bala, a faca, a asfixia... tudo isso pode estar no seu peito daqui a pouco, pode estar no seu pescoço. E aí, sim. Será suficiente para apagar qualquer sorriso, qualquer sonho.
Eu já disse, não sei bem qual é o pedido que eu venho fazer. Mas eu queria que vocês parassem. Em nome dos baleados, dos esfaqueados, dos estrangulados, dos esquartejados, dos queimados, que são vítimas de ódio pelo simples fato de terem nascido e de buscarem a felicidade. Não sei, não entendo. Sei que cada notícia dessa me estraga um dia de cada vez. Céus, vocês estão matando todo mundo! Vocês estão matando muitos corajosos, muita gente que para ser feliz, só estava matando seus próprios medos. Eu não sei, não sei mesmo o que eu quero dizer com esse texto, mas eu peço que vocês parem. 
Que não adiante eu pedir, mas eu peço. Quando a bala atingir vocês e o rosto de vocês for desfigurado, talvez vocês peçam também. Não sei. Mas acho que João Bosco sabia, João Bosco viu o corpo estendido no chão. Olha, João Bosco, pelo menos meu silêncio já não serve de amém.


domingo, 27 de novembro de 2011

Uma questão de crença

Descobri que a vida é uma decisão simples: escolher se você crê ou não crê em Deus. Essa é uma escolha que me parece ser o fundamental se o que se pretende é viver. Eu disse viver. Não passar pelo ciclo da vida, repetindo as mesmas ações comuns - nascer, crescer, amadurecer e morrer - isso qualquer vegetal faz. Disse viver, no sentido de sentir o sangue correr pelas veias, o ar entrar e sair do pulmão, aproveitar, sentir, viver. E isso é uma questão de difícil resolução: você acredita em Deus?
Parece uma pergunta simples que pede uma resposta a que se chega com menos esforço que o merecido: sim, acredito. Mas a indagação me parece um pouco mais densa. Acreditar em Deus vai além de portar a ideia de que ele existe, que mora lá no céu e tarda, mas não falha. Para ser sincera, não conheço ninguém que realmente acredite em Deus. Não creio que é possível acreditar em alguém, sem acreditar em sua palavra. E pouca gente acredita no que diz ser a palavra de Deus. Deus é tão inacreditável que a gente faz questão de manter uma distância, um respeito demasiado, por exemplo, a gente escreve "Deus-com-dê-maiúsculo" porque Deus é próprio, é importante, é alguém acima de nós. A gente nunca iguala deus a gente. "deus-com-dê-minúsculo" não é pecado. É? 
De qualquer forma, maior pecado do que escrever deus-com-dê-minúsculo deve ser não amar o próximo como amo a mim, não saber perdoar sinceramente e não alimentar os que tem fome. Eu e muitos dos meus "irmãos" pecamos todos os dias, mas pecamos porque a gente é da geração Gregório de Matos que acha que a gente tá aqui é pra pecar mesmo e deus que perdoe, afinal, deus tá aí é pra perdoar mesmo. No que nos favorece a gente acredita. O perdão de deus, certamente existe. Dar a outra face, perdoar setenta vezes sete vezes ao dia, não julgar... existe? Na palavra. Na palavra que a gente certamente não acredita, porque se acreditasse colocava em prática. 
Mais além... vejo que temos medo de acreditar que deus existe. A vontade de cometer o erro, sabendo que se está errando, sabendo que vai machucar o outro, refletir e decidir: vou errar. E o arrependimento, a maior prova de nossa dúvida: vou pedir perdão... vai que deus existe mesmo. E da boca pra fora, a gente perdoa tanto e pede tanto perdão...
Às vezes, tenho pena de deus. Coitado de deus. E escrevo deus assim mesmo com-dê-minúsculo. Tenho certeza que isso é o de menos pra ele hoje em dia. Eu não me incomodaria se alguém escrevesse meu nome com-a-minúsculo, desde que esse alguém me amasse e acreditasse no que eu digo e se sacrificasse por mim. Muita gente escreve meu nome com-a-maiúsculo e me diminui tanto no coração. Se vocês estão incomodados porque eu passei a escrever deus com inicial minúscula, sinto muito, mas pensem que vocês têm feito coisas piores, inclusive chamado este que vocês respeitam tanto de mentiroso, pois vocês não acreditam em nada que ele fala.
Eu, pelo menos, mesmo escrevendo o nome dele com letra minúscula, converso com ele; e ele me mandou dizer que vocês são muito visão e pouco tato e pediu que vocês compreendessem que ele não consegue se manisfestar sem abstração. Pediu também que vocês parem de ensinar às crianças que ele é concreto, porque as crianças ficam querendo vê-lo e ele quer que sejamos mais tato, mais sensibilité. Não vai dar pra agradar aos olhos de vocês, infelizmente. 
Está dado o recado. E é tudo uma questão de crença.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

À volonté

É chato este negócio das coisas mandarem na gente. Falo coisas no sentido de seres inanimados, que estão sempre coordenando nossas ações. Falo coisas também no sentido de superstições, outra chatice criada pelo homem pré-histórico, suponho eu.
Não é chato como o lápis está sempre exigindo que o apontemos? E como o celular perde carga? E como o carro só anda em troca de gasolina? E como temos que colocar os óculos para enxergar? E somos obrigados a prestar atenção no fogo aceso? A gente perde muito tempo obedecendo às coisas. É a cama que deve ser coberta,  a roupa que tem que ser lavada, o caminho que tem que ser interrompido por causa de uma escada na calçada. É o banho que pede a toalha, a toalha que pede Sol, o Sol que pede protetor, o protetor que pede as mãos, as mãos que pedem beijo, o beijo que pede amor, o amor que pede socorro. São os cabelos que pedem pente e o botão que só funciona se você pregar.
Pois hoje, só de molecagem mesmo, de pura meninice, não vou esquentar o café e ele será obrigado a me agradar frio. Vou obrigar a manga a combinar com o leite e o gato preto a me trazer sorte. Não vou colocar tinta na impressora e ela que não imprima, que implore cargas novas. Não ligo. E não vou lavar a louça, ela que se vire só, quero ver limpar-se sem minha ajuda.
Lava-se?
Não.
E o botão, sem mim, é pregado? 
Não.
E a cama vai ficar arrumada se eu não me ocupar dela?
Também não.
Pois bem, venci. Não funciono sem as coisas e as coisas também não funcionam sem mim. Seria um empate, mas venci porque tenho o poder de largar as coisas quando eu quiser e elas que se danem.
É bom retomar o controle da vida. À volonté.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Retroagindo

Posso afirmar que há algo que conheço sobre mim: sou indiscutivelmente apegada às coisas. Vivas ou não. Não importa; as coisas, quando posso tê-las, viram eu mesma. Sou parte das coisas e as coisas são parte de mim. É impossível largá-las.
Tenho em minhas mãos um livro, comecei a devorá-lo enquanto estava indo para casa, no ônibus. Me envolvi com o livro, me apaixonei pelo livro, pertenci a ele. Chegou o ponto em que eu deveria descer. Dali então haveria um trajeto a pé que me levaria até minha casa, porém achei muito desconfortável caminhar lendo, encoberta por um sol tão dolorido como é o das três da tarde. Passei do ponto e continuei no ônibus, mesmo sem saber ao certo qual seria a rota daquele momento em diante. Permaneci, porque não podia abandonar a leitura do livro e muito menos esperar chegar em casa para seguir devorando-o, iria sentir saudade, não gosto, seria o caminho mais longo e mais sofrido da minha vida. Espero chegar até o terminal mais próximo para tomar um outro ônibus que me deixe a poucos passos da minha casa, caminho que posso fazer lendo, não tem problema.
Por isso, às vezes não gosto de ver as pessoas. Me arrependo de encontrá-las. Sou demais os outros para esquecer os outros. Não gosto de vê-los indo embora. É uma pena ter nascido assim, desacostumada com partidas, com finais. É uma pena que eu tenha tentado mudar, pois tenho piorado bastante.

domingo, 25 de setembro de 2011

As aves que aqui gorjeiam

É inevitável. O assunto do momento é o Rock in Rio. E, claro, é inevitável também que surjam as mais diversas opiniões, afinal o evento reúne arte e público de todo o mundo. Mas o que tem chamado atenção, mais do que os espetáculos diga-se de passagem, é o show da intolerância musical, do desrespeito e da rebeldia sem causa. 
Vejamos. O Rock in Rio surge em 1985, por ideia de Roberto Medina, que disse em entrevista ao G1 (http://migre.me/5MlmQ) que como o país vivia uma época de transição entre o governo militar e a democracia , pensou em criar algo que mostrasse a cara do Brasil. Passaram pelo palco os grandes nomes revolucionários da época: Paralamas, Barão Vermelho e a novidade interessante de conseguirmos trazer atrações internacionais. Quem melhor para simbolizar a transição política brasileira do que os Paralamas do Sucesso que cantaram o país e todo o seu lixo político durante os anos 80? 
Pois é. O criador do festival - que certamente é a pessoa mais indicada para falar sobre o evento - disse: "A juventude queria ir para rua, achava que seria bom mostrar a cara do Brasil." Caríssimos, o Festival de Música "Rock in Rio" não surge como um evento de rock, surge como o símbolo de um país que se libertava.  E, nossa! Que árdua é a tarefa de pintar a cara do Brasil. O Brasil que é uma bela mistura de cores, de cantos e de toques. No mesmo Brasil em que se dançou a capoeira para enganar os senhores de engenho e seus capatazes, se criaram românticos como Vinícius e revolucionários como Gregório de Matos. E o interessante é que, nesse jeito tão múltiplo brasileiro de ser... se encaixam tantas vozes, tantas batidas, tantos ritmos, tantos sons! 
O que aparece nas redes sociais e se dissipa na mídia em 2011 é a geração "Rebeldes sem causa" que resolveu - 26 anos depois - mudar o objetivo do Rock in Rio. Para esse grupo, o Rock in Rio foi feito para cultuar bandas "do metal pesado", principalmente internacionais, claro... bem a cara do Brasil, não é?
Artistas nacionais, como as cantoras Claudia Leitte, Ivete Sangalo, Tulipa Ruiz, Maria Gadú... sobem ao palco e, se não passam despercebidas, passam apedrejadas. Por serem brasileiras, apenas. Por trazerem no canto o som do tambor, do violão, a batida brasileiríssima que expressa de fato, a cara do Brasil. Em outra edição Carlinhos Brown subiu ao palco do RIR. E... tudo foi tranquilo como uma manhã de domingo. Os mesmos Paralamas do Sucesso que estiveram em 1985 e em 2011 já cantaram com a Banda Calypso e registraram para a TV. Sem preconceitos. Porque são brasileiros e entendem o que é ser brasileiro. Ser brasileiro é dizer: "Que bom que o Rock in Rio voltou ao Rio e que temos coisas boas para mostrar." Ser brasileiro é aplaudir os que são de dentro com o mesmo vigor que, por respeito, se aplaude os que são de fora. 
Claudia Leitte, Ivete Sangalo... no Rock in Rio? Vergonha! Nx Zero? Vaia! O brasileiro ainda está nos moldes da colonização. Abaixa a cabeça e deixa que as metrópoles tomem conta. Enquanto Claudia e Ivete trazem o toque que as mãos calejadas dos nossos escravos fizeram soar e toda a energia que os nossos índios traziam estampadas na pele e na dança, representando sim, como diz Medina, a cara do Brasil, muita gente tenta ser intelectual, culto demais pra achar bonito os toques de sua terra e só mostra o quão ignorante é e o quanto está ou esteve numa sala de aula estudando História do Brasil pra nada.
Eu? Eu fico com Gonçalves Dias: "Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá!"
Para mim, enquanto houver Brasil, ouvirei com muito orgulho o canto dos sabiás brasileiros.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

E quando a saudade é imortal?

É interessante como as pessoas costumam “resolver saudade” hoje em dia. O que parece é que as definições de saudade não foram atualizadas.  O que fica claro é uma coisa: saudade não é bom sinal. Quando você começar a sentir saudade de alguém por sucessivos dias e demasiadas horas, repito: boa coisa não é. Afinal, as pessoas que por algum motivo se afastaram de nós, para hoje conseguirem ser chamadas de “distantes” é porque um dia já foram chamadas de “próximas” ou até de “amigo” ou até de “amor”; e, se algo passou de “próximo” a “distante” ou a “muito distante” ou a “Procurado” é porque, caríssimos, a coisa não vai bem mesmo.
Para entender o que se passa nesses infernais momentos, onde só o que se sente é saudade, você deve – primeiramente – tentar se conformar com o fato de que as pessoas não vivem isoladas, por isso, estão sempre conhecendo novas pessoas e é nesse processo que você vai acabar se dando mal. Avalie o grau de distância da sua saudade, mensurando o tempo que a sua saudade passa com outro alguém que acabou de conhecer, alguém que é muuuuito gente boa, engraçado, gosta de tudo e, pra seu maior azar, tem sempre mais chances de estar por perto.
Outra coisa, nunca pense que o problema é com você. O problema não é com você. Seria um absurdo, se o problema fosse com você! Mas, por que desgraça o problema tem que ser com você? Não que seja, mas pode ser. Mas nunca pense que é. Porque pensando assim, você vai acabar cometendo o grave erro de perguntar “o que está acontecendo”. Nunca pergunte o que está acontecendo. Primeiro, porque a pessoa nunca vai te contar de fato o que está acontecendo, porque no fundo ainda há respeito para se pouparem as mágoas e vocês ainda não se odeiam tanto a ponto de falarem a verdade sobre o afastamento; segundo, porque você não vai querer saber o que está acontecendo, é melhor não e, terceiro, porque, mesmo sabendo o que está acontecendo, você não pode resolver absolutamente nada. Porque, provavelmente, alguém está acontecendo e, a não ser que você tenha amigos muuuito influentes, do tipo portador de arma, alguém vai continuar acontecendo todos os dias.
Existe ainda o fator tempo, prepare-se para começar a lidar com a pessoa mais ocupada do mundo, você tentará marcar um encontro por aproximadamente 3 semanas, até conseguir a resposta de uma mensagem. Atender suas ligações, nem pensar, nunca se terá tempo. Se você tiver o sangue frio de provocar a ira, faça uma surpresa. E foi um prazer ter te conhecido.
Mas a parte pior, a pior parte de todas, é a hora de “matar a saudade”, pois as pessoas já não conseguem compreender do que se trata saudade. Saudade não se cura com uma conversa, uma tarde, uma noite. Saudade se cura com o retorno das coisas à sua normalidade. Não é saudade de ver, é saudade de ter. Mas as pessoas continuam marcando encontros ridículos de duas horas em qualquer esquina, quando, no passado, se passavam horas e horas no aconchego de um quintal, rindo da vida, falando das maiores besteiras, caindo e levantando de bicicleta, fazendo carinho pra dormir... despedindo-se com um “até amanhã.” Um “até amanhã” que vira um silêncio absurdo, por não se saber ao certo se haverá um amanhã para aquelas pessoas que tanto se perderam no caminho. Uma despedida que traz mais saudade do que trazia a saudade anterior. A verdade é que ninguém está mais disposto. Um não está mais disposto a procurar, está por demais cansado e acha que já foi por demais humilhado até chegar ali; outro simplesmente não faz questão: alguém melhor está acontecendo.
Se você quer realmente não sentir mais saudade de alguém, o conselho que posso te dar é: encontre alguém. Não, não esse, outro. Depois de tanta ação do tempo e tantas pessoas que apareceram, você nunca mais vai conseguir retomar as coisas, elas nunca voltarão a ser como eram antes. Você vai precisar se reinventar e tentar começar tudo de novo, com outro alguém para dividir seu quintal. Não adianta, é muita gente no mundo, é o mundo girando muito rápido e, nesses movimentos todos, junto com o mundo as pessoas vão girando e se afastando. Pode ser até que um dia elas parem em você de novo, mas vocês já terão se esquecido o suficiente. A natureza humana é desesperadora, principalmente pra quem tem dificuldade de crescer. 

domingo, 21 de agosto de 2011

A inevitável tarefa de ser

Saíra para jantar com os amigos. Sorria. Sorria como se cada alegria valesse um prêmio que chegaria às suas mãos por meio da famosa teoria popular: o que se tem é o que se dá. Durante o jantar, conversaram sobre novelas, filmes, falaram sobre pessoas, alguém casou, alguém está grávida, alguém separou... falaram sobre roupas e sapatos. Tinha imensa habilidade para o disfarce. Ela inteira, futilidade por futilidade da qual falava, gargalhada por gargalhada que distribuía, era um bonito e bem moldado disfarce.
Chegara em casa, tirara o sapatos, jogara-se ao sofá. Agora, nenhum motivo para sorrir, ninguém. Era inevitável, assim, pensar em quem lhe fazia falta, pois, para ela, podia ser ela. Parecia que junto com os sapatos, tirava também todo o disfarce, pois aquele sapato, aquela roupa, aquele cabelo não eram para ela, eram para os outros. Começou a pensar; pensar também era inevitável. Ela vivia para os outros, para os que podia ter e mais ainda para os que não estavam ao seu alcance.
Quão longa e grossa era aquela linha que separava a mágoa do pedido de desculpas? E quão maior era a que separava o pedido de desculpas da ação de perdoar? Era saudade, mas não era qualquer saudade. Era uma saudade daquelas em que todo o corpo se envolve. Não era saudade que se curasse com um bom livro, uma ligação, uma boa música. Era uma saudade tão grande, que ela conseguia sentir o sangue correr dentro de seu corpo, como se o coração estivesse sangrando. E, junto com essa hemorragia interna, aparecia também uma espécie de rio de lágrimas que não corriam só pelos olhos, como se todo o seu corpo participasse daquele pranto sem fim. Há mesmo de se sofrer desse jeito, pensava ela, conformada. Era uma pessoa que tinha fé nas coisas do mundo, acreditava que tudo aquilo que acontecia, de fato precisava acontecer. Mas agoniava-se por saber que aquele ainda não era o fim. Era saudade, era ruim, era pior. Mas era saudade de alguém que ainda fazia parte de sua vida. E quando tudo aquilo acabasse? Que falta imensa iria sentir, quando não houvesse mais jeito, não houvesse mais como.
E naquele momento se sentia desprotegida. Percebeu que ela talvez não fosse digna do esforço dos outros. Viu que os outros nem a conheciam, porque ela não permitia deixar-se conhecer. Sentia-se como aqueles pedintes pelos quais as pessoas passam diariamente e, sem nenhuma culpa, ignoram. Ora, é só um mendigo, e é esta a sua função: mendigar. Queria sair daquela condição, mas não tinha armas.
E que tristeza seria quando tudo aquilo acabasse. Com os outros, sorria; a sós, chorava; era um hábito, uma espécie de rotina. As pessoas lhe faltavam nesses momentos, mas já sofria de forma extrema o suficiente para ainda sofrer mais procurando alguém que, certamente, não viria. Não gostava de ser assim, por isso não era assim. Por isso se disfarçava, por isso cumpria obrigações que não eram suas e, por isso também só se permitia ser o que era para si, por falta de aceitação mesmo.
No sofá mesmo adormeceu, na esperança de que, dormindo a dor passasse. Inútil. Antes de adormecer ainda conseguiu pensar no que faria amanhã. O mesmo de sempre, sorriria para muita gente, divertiria os outros um bocado, falaria sobre futilidades, vestiria-se bem... e viu que estava cansada, porque era muito difícil fazer tudo isso quando o corpo inteiro dói. Mas, para o bem dos outros, faria. E esperaria também o dia em que alguém viesse protegê-la dessa dor, que não sarava nunca. 
Descansou o corpo no sofá, mas a mente continuava estimulando a dor que todo seu organismo sentia. Os anjos passeavam no seu sonho e diziam: "É uma alma sem salvação."

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Às regras, exceções

O amor é para sempre. É essa a conclusão a qual se pode chegar ao reencontrar aquela pessoa cujo nome você evitou pronunciar (porque é só falar no ***** que aparece o ****) durante meses e cuja atenção você não vive sem. Porque é realmente assim que as coisas acontecem, tenhamos coragem para assumir: você esqueceu o fulano, até o fulano aparecer na sua frente e te deixar num estado-de-babaquice-permanente, mais conhecido como fe-li-ci-da-de.
O reencontro acontece quase sempre de forma inesperada, já que a história anterior é quase sempre a mesma: você conhece o fulano, se apaixona pelo fulano, ele se apaixona por você, você se apaixona mais, ele continua na paixão fase 1, você está na fase 3, ele na fase1, você na 4, fase 1, game over. Game over porque de repente o fulano não responde as mensagens, não atende as ligações.
Em um belo dia de qualquer-feira, alguém (quem, quem, quem?) resolve te desejar "bom dia". E, naquele "bom-dia-ponto-final" você lê "bom-dia-reticências". Pra você nunca tem fim. E você marca um encontro. Errado. Você implora um encontro. E vai. Disposta a agir diferente.
Você finge que esqueceu as mensagens ignoradas, as chamadas não atendidas, as desculpas nada convincentes, o carinho sem reciprocidade. Você esquece até as lágrimas que você jurou não esquecer, que jurou não derramar mais. Esquece. Porque o olhar do fulano é uma borracha e, no jogo sério, olho no olho, você se apaga.
É ele. É aquele olhar que, no começo do sonho, te conduziu tão bem que, se a vida fosse um tango, aquele olhar seria Antônio Banderas em "Vem Dançar".
O dia acabou. O encontro também. Seu coração não falou metade do que seu cérebro escreveu. Você fingiu esquecer todas as dores que ainda doem. E o fulano não precisa fingir, ele esqueceu realmente! Aliás, ele nem sabe quantos litros de lágrimas foram derramados naquele dia que você escreveu uma mensagem de cinco páginas pra ele e obteve a seguinte resposta: Se cuida. Se cuida é triste. Se cuida é tipo ouvir Ana Carolina num dia de tristeza: fatal. Antes Capitão Nascimento com a tortura do saco do que uma mensagem de texto com "Se cuida".
Mas acabou. E você não mandou uma mensagem ao fim do dia e nem se partiu em dez na hora da despedida. MENTIRA. Você não só enviou mensagem, como aumentou o número de páginas. Mas você não vai ligar, não vai, não vai. Até porque sua chamada já foi encaminhada para caixa de mensagens e, na 12ª ligação, o celular - misteriosamente - estava fora de área  ou "temporariamente" desligado.
Você tem muitos medos, eu sei. E eu sei também o motivo. É este: às regras, exceções. Nada ser para sempre é uma regra. Adivinhem qual é a exceção.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Why this world, Clarice?

Bem que Drummond disse: "Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice." Verdade absoluta. A gente lê Clarice par tentar se entender, entender o outro, se explicar, explicar aos outros. Por que, Clarice, por que este mundo?
Clarice não responde, Clarice não sabe, Clarice procura. Ela também quer saber daquele mundo que ela bem que tentou tolerar, bem que tentou entender, bem que tentou explicar. Pois é, Clarice, perto do coração selvagem ninguém vive ileso. Por que, Clarice? Por que esse coração?
Primeiro sofrer, depois escrever. Eu sei, você não é triste assim... só está cansada. E nós também estamos. Como na história de Mineirinho, somos o décimo terceiro tiro. Nós estamos cansados de mendigar como a menina de Felicidade Clandestina, temos batalhado muito para conseguir o nosso "pelo tempo que quiser". Também soluçamos, com a cabeça em chamas, como a menina ruiva em "Tentação". Porque os nossos cães basset também viram as costas e se vão, sem olhar para trás. E a perda é dura. Não adianta, perdas são insuperáveis. A gente sobrevive, mas a vida muda.

E nós... nós, se não me falha a memória, morreremos.
Why? Why this world, Clarice?

"Tem períodos, hiatos, em que a vida fica intolerável."


quarta-feira, 20 de julho de 2011

L'amitié

História que ouvi por aí...

Estava um mendigo a pedir esmolas numa praça, quando, por pura maldade (daquela maldade inevitavelmente humana de, ao perceber alguém mal, ajudar a piorar) dois rapazes começaram a perturbar o pobre homem. Começaram com ofensas, provocações e não demoraram muito para que partissem para a agressão. Um cachorro que passava a trotes lentos, diante da cena, avançou nos dois garotos que saíram mais covardes que um gatinho de rua. 
Dali por diante, o cachorro não mais deixou de seguir o mendigo. Passaram-se anos e aquele animal fora o único ser vivo que se dispôs a acompanhar o homem, homem só, só homem, no mundo. 
Certo dia, na mesma praça onde costumava pedir, um mendigo foi convidado por um passante para comer um cachorro-quente, como forma de esmola. Ao pegar o alimento, o mendigo sentou num banco, tirou a salsicha e deu ao cachorro, começando a comer somente o pão. Assistindo à cena, o homem que havia comprado o lanche, se aproximou:
- Eu comprei um cachorro-quente pra você e você dá a salsicha a um cachorro?
O mendigo respondeu:
- Para o melhor amigo, o melhor pedaço.

Não sei se o mendigo leu O Pequeno Príncipe, mas "Tu te tornas eternamente responsável..."

Feliz Dia do Amigo, pra quem realmente sabe ter e sabe ser.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Você você você você você você nananana?

Na minha época de Ensino Médio, todo mundo descobriu Renato Russo, Cazuza, Cássia Eller etc. Acho que, na verdade, todo mundo descobre o rock no Ensino Médio, todo mundo quer aprender logo a tocar guitarra ou bateria pra ter logo uma banda, ir pro Luciano Huck ou até sonhar mais alto e almejar tocar na Feira de Ciências do colégio ou até mesmo o auge do sucesso: tocar na festa de algum colega de sala. Mas tá, não é isso.
Comecei falando do Renato, porque ele é o compositor de Faroeste Caboclo, aquele musicão - literalmente - de 10 minutos e 1.220 palavras, que vai até virar filme (tô curiosa pra saber quem vai ser a Winchester-22 e...) e tal. Pois é. Na minha época de escola (você percebe que não pode mais cair e levantar com a mesma velocidade, quando usa "na minha época", dica), o sonho de todo mundo era decorar Faroeste Caboclo. Não se podia ser legal se não se soubesse cantar Faroeste Caboclo. Você podia não saber cantar o Hino Nacional - a maioria do Ensino médio não sabe cantar mesmo, quem liga? - mas Faroeste Caboclo era obrigatório! Como assim você não sabe cantar Faroeste Caboclo? Tinha aquela galera que achava que Pais e Filhos era "É preciso amar" e que Renato Russo era do Barão Vermelho e tinha até aqueles que cantavam "seexo oraaal  não faz meeu estiloooo", mas Faroeste Caboclo tinha que saber. Aí, tá.
O que eu quero falar mesmo é sobre este branco, esta agressão, este insulto que está sendo feito às grandes composições. Entendam GRANDES, no sentido de 1.220 palavras. Não podemos ficar calados diante dessa musicalidade composta por monossílabos (panela na mão), diante desse exagero onomatopeico (peguei o megafone), diante desse tédio musical (pintei a  cara), diante dessa falta de vocabulário dos compositores! (subi no palanque).
Você você você você você você você você você você você você você você você você você você você você você você... quer? COMO ASSIM? A pessoa passa horas repetindo um pronome pessoal de tratamento e a única coisa que ela consegue criar depois disso é QUER? Vou não, quero não, posso não. Opa, eu fiz de novo. Agora só resta uma saída. É dar uma fugidinha com o Super Man e ... Para. Sério agora. Atire a primeira bola de papel quem nunca pensou: "Por que eu não fiz essa músicaaa?" Vamos lá, pessoal, quem aqui não queria ter sido o compositor do Rebolation ou do Tchubirabiron? Ou até mesmo da Florentina, Florentina, Florentina de Jesus, não sei se tu me amas, pra que tu me seduuz? Simples! Mas não, vocês ficam aí querendo fazer  bonito, como se o povo quisesse beleza e...
Tá. Mas revoltante mesmo são aquelas letras que o pessoal sequer se dá ao trabalho de colocar monossílabos. Eles preferem os laiá laiá, nananana, lelelelele, ô-ô-ô, aê aê aê aê ê ê ê ô ô ô ô ... Tipo vem bananear ê á, vem... eer... huum... faltou rima ... vem NANANANA. Pronto, vem nananana. E todo mundo nanananando. Ainda tem o pessoal que até consegue fazer uma estrofe e aí depois começa a repetir, não sei, acho que é pra se convencer de que ficou bom, mas o negócio é que bate o desespero quando um cara fica no seu ouvido falando Sou negão, sou negão, negão por 16 vezes. São 16 vezes. Duas palavras. 16 vezes! Duas. Palavras. Dezesseis. Vezes. Duas palavras. Duas palavras. Viu, como cansa? Pois é. Renato Russo diria o quê? "Palavras repetidas... mas quais são as palavras que nunca são ditas?" Ô.

domingo, 5 de junho de 2011

Micareta e farofa na praia

Não é interessante como chega um final de semana e você olha pra vida e pergunta: pra quê? É. Ou não. Depende de quem você é, porque se você for consumidor de cerveja quente tem sempre o churrasco na casa do fulano (é impressionante o número de churrascos que aparecem quando a pessoa bebe e...), se você gosta de cerveja gelada deve ter um jogo entre Flamengo e Corinthians num bar qualquer com tv a cabo, se você gosta de homens descamisados passando a língua na sua boca sem pedir autorização, deve ter uma micareta qualquer na sua cidade e... por que eu tô sempre em casa? Porque eu escolho estar sempre em casa. Errado. Acho que é porque eu não sou flamenguista, nem corinthiana, nem vejo o Programa do Ratinho e não sei fazer lasanha, nem dar escova no cabelo de amigas, nem tirar cutícula, nem fazer maquiagem, nem fazer dieta. Parei. Com certeza é porque não sei fazer a velocidade 5 na dança do créu. Ou é por que não como coração de galinha com farofa de manteiga? Parei de novo. Entretanto, eu já prometi que ano que vem vou prometer aprender a tomar cerveja e rodar a latinha molhando todo mundo nas micaretas, vejo muita gente ter amigos sendo assim.
Quem sabe uma boate gay? Mas aí também não dá, eu não sou alegre o suficiente, nem tenho roupa adequada, porque, com certeza, eu encontraria lá pessoas muito melhor vestidas do que eu e eu também nem sei cantar Firework.
Praia também é uma alternativa pro fim de semana, se eu gostasse de sol. Um recital com amigos inteligentes, se eu fosse intelectual. tem isso também, as pessoas sempre pensam que você é intelectual se você diz que não gosta de cerveja, micareta e farofa na praia. Errado. Isso não é intelecto, é isolamento. Se juntar com a galera do rock e tomar vodka de madrugada, se você soubesse cantar em inglês e tivesse uma boa sombra, um bom lápis e já tivesse ingressos pro Rock in Rio.
Daí você resolve aparecer no churrasco do sítio. Ouvindo o pancadão, o pagodão, a pisadinha, o batidão, a swigueira, o bate-lata, o fundo de quintal, o ronco da cuica, o castigo do tamborim. A impressão que dá é que você já é um estranho ali porque todos já estão rindo tão alto que parece que é de você (deve ser porque você já chegou com fones de ouvido e um livro grosso na mão - é típico de pessoas que não estão acostumadas com micareta e farofa na praia). Você fica lá, sorri com simpatia, tem a galera sem camisa fazendo piada, tem a mulher que só fica pegando as latinhas pro cara que ela quer pegar, começam os apelidos carinhosos, as fotos com a farofa caindo da boca. E você tá lá, tentando parecer mais natural que banana em vitamina, quando, na verdade, você já arrumou um jeito de ficar triste pensando no fulano que do nada parou de te ligar e disse que amava outra no twitter (pesquisas comprovam que 90% das pessoas que não gostam de micareta e farofa na praia estão sempre sofrendo por amor). E você já arrumou também um jeito de olhar com poesia até as formiguinhas que passeiam pelo seu pé.
Aí você inventou um trabalho pra fazer, uma prova pra estudar e foi pra casa. É melhor ficar lendo Machado, escrevendo poesia, ouvindo Caetano. Mas você não é intelectual o bastante. Você liga o computador, entra no msn, fala com aqueles amigos que estão tão entediados quanto você, mas já não são tão íntimos seus pra marcar um programa pra hoje - vocês trocam um "Vamos marcar mesmo!" - e você vai morrer de ciúmes no twitter, ao som do Exalta.

Eu explico

No raso, no raso
É medo
Medo de ter que colar os pedaços
Medo de ter que quebrar o retrato
É timidez de início de ilusão

No raso
Bem no raso
É experiência mal-sucedida
É mágoa acumulada
É resto de paixão no coração

É querer jogar o lixo fora
Mas se apegar à recordação

No raso
Lá no raso
É o pânico do outra vez
É o mistério do não dar
É a previsão da frieza
É a voz da certeza
De estar só no final

É por conhecer as pessoas
E seu comportamento
Sua doçura passageira
Seus hábitos contemporâneos
De colocar validade
De usar
E descartar

Sabe, lá no raso?
Não é falta de vontade
É lembrar como dói a queda
Como quem se afoga
Não quer mais água
Quem se queima
Não quer mais fogo

Entende?
Não é não gostar
É não ter mais olhos
Para ler a mesma história
É não ter mais boca
Para gritar a mesma frase
É não ter mais ouvido
Para colecionar nãos
É não ter mais cara pra bater
E não ter mais coração pra apanhar

É que no raso
Bem no raso
Tudo já sofre
A síndrome do não ir mais
Porque demora
Mas a gente aprende
Não sobra nada
Mas a gente entende

No raso
Lá no raso
Onde o corpo da esperança
Está sepultado.