Pouso

Pousei por livre vontade
na palma da sua mão
E agora você decide
se é liberdade ou prisão.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

E quando a saudade é imortal?

É interessante como as pessoas costumam “resolver saudade” hoje em dia. O que parece é que as definições de saudade não foram atualizadas.  O que fica claro é uma coisa: saudade não é bom sinal. Quando você começar a sentir saudade de alguém por sucessivos dias e demasiadas horas, repito: boa coisa não é. Afinal, as pessoas que por algum motivo se afastaram de nós, para hoje conseguirem ser chamadas de “distantes” é porque um dia já foram chamadas de “próximas” ou até de “amigo” ou até de “amor”; e, se algo passou de “próximo” a “distante” ou a “muito distante” ou a “Procurado” é porque, caríssimos, a coisa não vai bem mesmo.
Para entender o que se passa nesses infernais momentos, onde só o que se sente é saudade, você deve – primeiramente – tentar se conformar com o fato de que as pessoas não vivem isoladas, por isso, estão sempre conhecendo novas pessoas e é nesse processo que você vai acabar se dando mal. Avalie o grau de distância da sua saudade, mensurando o tempo que a sua saudade passa com outro alguém que acabou de conhecer, alguém que é muuuuito gente boa, engraçado, gosta de tudo e, pra seu maior azar, tem sempre mais chances de estar por perto.
Outra coisa, nunca pense que o problema é com você. O problema não é com você. Seria um absurdo, se o problema fosse com você! Mas, por que desgraça o problema tem que ser com você? Não que seja, mas pode ser. Mas nunca pense que é. Porque pensando assim, você vai acabar cometendo o grave erro de perguntar “o que está acontecendo”. Nunca pergunte o que está acontecendo. Primeiro, porque a pessoa nunca vai te contar de fato o que está acontecendo, porque no fundo ainda há respeito para se pouparem as mágoas e vocês ainda não se odeiam tanto a ponto de falarem a verdade sobre o afastamento; segundo, porque você não vai querer saber o que está acontecendo, é melhor não e, terceiro, porque, mesmo sabendo o que está acontecendo, você não pode resolver absolutamente nada. Porque, provavelmente, alguém está acontecendo e, a não ser que você tenha amigos muuuito influentes, do tipo portador de arma, alguém vai continuar acontecendo todos os dias.
Existe ainda o fator tempo, prepare-se para começar a lidar com a pessoa mais ocupada do mundo, você tentará marcar um encontro por aproximadamente 3 semanas, até conseguir a resposta de uma mensagem. Atender suas ligações, nem pensar, nunca se terá tempo. Se você tiver o sangue frio de provocar a ira, faça uma surpresa. E foi um prazer ter te conhecido.
Mas a parte pior, a pior parte de todas, é a hora de “matar a saudade”, pois as pessoas já não conseguem compreender do que se trata saudade. Saudade não se cura com uma conversa, uma tarde, uma noite. Saudade se cura com o retorno das coisas à sua normalidade. Não é saudade de ver, é saudade de ter. Mas as pessoas continuam marcando encontros ridículos de duas horas em qualquer esquina, quando, no passado, se passavam horas e horas no aconchego de um quintal, rindo da vida, falando das maiores besteiras, caindo e levantando de bicicleta, fazendo carinho pra dormir... despedindo-se com um “até amanhã.” Um “até amanhã” que vira um silêncio absurdo, por não se saber ao certo se haverá um amanhã para aquelas pessoas que tanto se perderam no caminho. Uma despedida que traz mais saudade do que trazia a saudade anterior. A verdade é que ninguém está mais disposto. Um não está mais disposto a procurar, está por demais cansado e acha que já foi por demais humilhado até chegar ali; outro simplesmente não faz questão: alguém melhor está acontecendo.
Se você quer realmente não sentir mais saudade de alguém, o conselho que posso te dar é: encontre alguém. Não, não esse, outro. Depois de tanta ação do tempo e tantas pessoas que apareceram, você nunca mais vai conseguir retomar as coisas, elas nunca voltarão a ser como eram antes. Você vai precisar se reinventar e tentar começar tudo de novo, com outro alguém para dividir seu quintal. Não adianta, é muita gente no mundo, é o mundo girando muito rápido e, nesses movimentos todos, junto com o mundo as pessoas vão girando e se afastando. Pode ser até que um dia elas parem em você de novo, mas vocês já terão se esquecido o suficiente. A natureza humana é desesperadora, principalmente pra quem tem dificuldade de crescer. 

domingo, 21 de agosto de 2011

A inevitável tarefa de ser

Saíra para jantar com os amigos. Sorria. Sorria como se cada alegria valesse um prêmio que chegaria às suas mãos por meio da famosa teoria popular: o que se tem é o que se dá. Durante o jantar, conversaram sobre novelas, filmes, falaram sobre pessoas, alguém casou, alguém está grávida, alguém separou... falaram sobre roupas e sapatos. Tinha imensa habilidade para o disfarce. Ela inteira, futilidade por futilidade da qual falava, gargalhada por gargalhada que distribuía, era um bonito e bem moldado disfarce.
Chegara em casa, tirara o sapatos, jogara-se ao sofá. Agora, nenhum motivo para sorrir, ninguém. Era inevitável, assim, pensar em quem lhe fazia falta, pois, para ela, podia ser ela. Parecia que junto com os sapatos, tirava também todo o disfarce, pois aquele sapato, aquela roupa, aquele cabelo não eram para ela, eram para os outros. Começou a pensar; pensar também era inevitável. Ela vivia para os outros, para os que podia ter e mais ainda para os que não estavam ao seu alcance.
Quão longa e grossa era aquela linha que separava a mágoa do pedido de desculpas? E quão maior era a que separava o pedido de desculpas da ação de perdoar? Era saudade, mas não era qualquer saudade. Era uma saudade daquelas em que todo o corpo se envolve. Não era saudade que se curasse com um bom livro, uma ligação, uma boa música. Era uma saudade tão grande, que ela conseguia sentir o sangue correr dentro de seu corpo, como se o coração estivesse sangrando. E, junto com essa hemorragia interna, aparecia também uma espécie de rio de lágrimas que não corriam só pelos olhos, como se todo o seu corpo participasse daquele pranto sem fim. Há mesmo de se sofrer desse jeito, pensava ela, conformada. Era uma pessoa que tinha fé nas coisas do mundo, acreditava que tudo aquilo que acontecia, de fato precisava acontecer. Mas agoniava-se por saber que aquele ainda não era o fim. Era saudade, era ruim, era pior. Mas era saudade de alguém que ainda fazia parte de sua vida. E quando tudo aquilo acabasse? Que falta imensa iria sentir, quando não houvesse mais jeito, não houvesse mais como.
E naquele momento se sentia desprotegida. Percebeu que ela talvez não fosse digna do esforço dos outros. Viu que os outros nem a conheciam, porque ela não permitia deixar-se conhecer. Sentia-se como aqueles pedintes pelos quais as pessoas passam diariamente e, sem nenhuma culpa, ignoram. Ora, é só um mendigo, e é esta a sua função: mendigar. Queria sair daquela condição, mas não tinha armas.
E que tristeza seria quando tudo aquilo acabasse. Com os outros, sorria; a sós, chorava; era um hábito, uma espécie de rotina. As pessoas lhe faltavam nesses momentos, mas já sofria de forma extrema o suficiente para ainda sofrer mais procurando alguém que, certamente, não viria. Não gostava de ser assim, por isso não era assim. Por isso se disfarçava, por isso cumpria obrigações que não eram suas e, por isso também só se permitia ser o que era para si, por falta de aceitação mesmo.
No sofá mesmo adormeceu, na esperança de que, dormindo a dor passasse. Inútil. Antes de adormecer ainda conseguiu pensar no que faria amanhã. O mesmo de sempre, sorriria para muita gente, divertiria os outros um bocado, falaria sobre futilidades, vestiria-se bem... e viu que estava cansada, porque era muito difícil fazer tudo isso quando o corpo inteiro dói. Mas, para o bem dos outros, faria. E esperaria também o dia em que alguém viesse protegê-la dessa dor, que não sarava nunca. 
Descansou o corpo no sofá, mas a mente continuava estimulando a dor que todo seu organismo sentia. Os anjos passeavam no seu sonho e diziam: "É uma alma sem salvação."

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Às regras, exceções

O amor é para sempre. É essa a conclusão a qual se pode chegar ao reencontrar aquela pessoa cujo nome você evitou pronunciar (porque é só falar no ***** que aparece o ****) durante meses e cuja atenção você não vive sem. Porque é realmente assim que as coisas acontecem, tenhamos coragem para assumir: você esqueceu o fulano, até o fulano aparecer na sua frente e te deixar num estado-de-babaquice-permanente, mais conhecido como fe-li-ci-da-de.
O reencontro acontece quase sempre de forma inesperada, já que a história anterior é quase sempre a mesma: você conhece o fulano, se apaixona pelo fulano, ele se apaixona por você, você se apaixona mais, ele continua na paixão fase 1, você está na fase 3, ele na fase1, você na 4, fase 1, game over. Game over porque de repente o fulano não responde as mensagens, não atende as ligações.
Em um belo dia de qualquer-feira, alguém (quem, quem, quem?) resolve te desejar "bom dia". E, naquele "bom-dia-ponto-final" você lê "bom-dia-reticências". Pra você nunca tem fim. E você marca um encontro. Errado. Você implora um encontro. E vai. Disposta a agir diferente.
Você finge que esqueceu as mensagens ignoradas, as chamadas não atendidas, as desculpas nada convincentes, o carinho sem reciprocidade. Você esquece até as lágrimas que você jurou não esquecer, que jurou não derramar mais. Esquece. Porque o olhar do fulano é uma borracha e, no jogo sério, olho no olho, você se apaga.
É ele. É aquele olhar que, no começo do sonho, te conduziu tão bem que, se a vida fosse um tango, aquele olhar seria Antônio Banderas em "Vem Dançar".
O dia acabou. O encontro também. Seu coração não falou metade do que seu cérebro escreveu. Você fingiu esquecer todas as dores que ainda doem. E o fulano não precisa fingir, ele esqueceu realmente! Aliás, ele nem sabe quantos litros de lágrimas foram derramados naquele dia que você escreveu uma mensagem de cinco páginas pra ele e obteve a seguinte resposta: Se cuida. Se cuida é triste. Se cuida é tipo ouvir Ana Carolina num dia de tristeza: fatal. Antes Capitão Nascimento com a tortura do saco do que uma mensagem de texto com "Se cuida".
Mas acabou. E você não mandou uma mensagem ao fim do dia e nem se partiu em dez na hora da despedida. MENTIRA. Você não só enviou mensagem, como aumentou o número de páginas. Mas você não vai ligar, não vai, não vai. Até porque sua chamada já foi encaminhada para caixa de mensagens e, na 12ª ligação, o celular - misteriosamente - estava fora de área  ou "temporariamente" desligado.
Você tem muitos medos, eu sei. E eu sei também o motivo. É este: às regras, exceções. Nada ser para sempre é uma regra. Adivinhem qual é a exceção.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Why this world, Clarice?

Bem que Drummond disse: "Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice." Verdade absoluta. A gente lê Clarice par tentar se entender, entender o outro, se explicar, explicar aos outros. Por que, Clarice, por que este mundo?
Clarice não responde, Clarice não sabe, Clarice procura. Ela também quer saber daquele mundo que ela bem que tentou tolerar, bem que tentou entender, bem que tentou explicar. Pois é, Clarice, perto do coração selvagem ninguém vive ileso. Por que, Clarice? Por que esse coração?
Primeiro sofrer, depois escrever. Eu sei, você não é triste assim... só está cansada. E nós também estamos. Como na história de Mineirinho, somos o décimo terceiro tiro. Nós estamos cansados de mendigar como a menina de Felicidade Clandestina, temos batalhado muito para conseguir o nosso "pelo tempo que quiser". Também soluçamos, com a cabeça em chamas, como a menina ruiva em "Tentação". Porque os nossos cães basset também viram as costas e se vão, sem olhar para trás. E a perda é dura. Não adianta, perdas são insuperáveis. A gente sobrevive, mas a vida muda.

E nós... nós, se não me falha a memória, morreremos.
Why? Why this world, Clarice?

"Tem períodos, hiatos, em que a vida fica intolerável."