Pouso

Pousei por livre vontade
na palma da sua mão
E agora você decide
se é liberdade ou prisão.

domingo, 21 de agosto de 2011

A inevitável tarefa de ser

Saíra para jantar com os amigos. Sorria. Sorria como se cada alegria valesse um prêmio que chegaria às suas mãos por meio da famosa teoria popular: o que se tem é o que se dá. Durante o jantar, conversaram sobre novelas, filmes, falaram sobre pessoas, alguém casou, alguém está grávida, alguém separou... falaram sobre roupas e sapatos. Tinha imensa habilidade para o disfarce. Ela inteira, futilidade por futilidade da qual falava, gargalhada por gargalhada que distribuía, era um bonito e bem moldado disfarce.
Chegara em casa, tirara o sapatos, jogara-se ao sofá. Agora, nenhum motivo para sorrir, ninguém. Era inevitável, assim, pensar em quem lhe fazia falta, pois, para ela, podia ser ela. Parecia que junto com os sapatos, tirava também todo o disfarce, pois aquele sapato, aquela roupa, aquele cabelo não eram para ela, eram para os outros. Começou a pensar; pensar também era inevitável. Ela vivia para os outros, para os que podia ter e mais ainda para os que não estavam ao seu alcance.
Quão longa e grossa era aquela linha que separava a mágoa do pedido de desculpas? E quão maior era a que separava o pedido de desculpas da ação de perdoar? Era saudade, mas não era qualquer saudade. Era uma saudade daquelas em que todo o corpo se envolve. Não era saudade que se curasse com um bom livro, uma ligação, uma boa música. Era uma saudade tão grande, que ela conseguia sentir o sangue correr dentro de seu corpo, como se o coração estivesse sangrando. E, junto com essa hemorragia interna, aparecia também uma espécie de rio de lágrimas que não corriam só pelos olhos, como se todo o seu corpo participasse daquele pranto sem fim. Há mesmo de se sofrer desse jeito, pensava ela, conformada. Era uma pessoa que tinha fé nas coisas do mundo, acreditava que tudo aquilo que acontecia, de fato precisava acontecer. Mas agoniava-se por saber que aquele ainda não era o fim. Era saudade, era ruim, era pior. Mas era saudade de alguém que ainda fazia parte de sua vida. E quando tudo aquilo acabasse? Que falta imensa iria sentir, quando não houvesse mais jeito, não houvesse mais como.
E naquele momento se sentia desprotegida. Percebeu que ela talvez não fosse digna do esforço dos outros. Viu que os outros nem a conheciam, porque ela não permitia deixar-se conhecer. Sentia-se como aqueles pedintes pelos quais as pessoas passam diariamente e, sem nenhuma culpa, ignoram. Ora, é só um mendigo, e é esta a sua função: mendigar. Queria sair daquela condição, mas não tinha armas.
E que tristeza seria quando tudo aquilo acabasse. Com os outros, sorria; a sós, chorava; era um hábito, uma espécie de rotina. As pessoas lhe faltavam nesses momentos, mas já sofria de forma extrema o suficiente para ainda sofrer mais procurando alguém que, certamente, não viria. Não gostava de ser assim, por isso não era assim. Por isso se disfarçava, por isso cumpria obrigações que não eram suas e, por isso também só se permitia ser o que era para si, por falta de aceitação mesmo.
No sofá mesmo adormeceu, na esperança de que, dormindo a dor passasse. Inútil. Antes de adormecer ainda conseguiu pensar no que faria amanhã. O mesmo de sempre, sorriria para muita gente, divertiria os outros um bocado, falaria sobre futilidades, vestiria-se bem... e viu que estava cansada, porque era muito difícil fazer tudo isso quando o corpo inteiro dói. Mas, para o bem dos outros, faria. E esperaria também o dia em que alguém viesse protegê-la dessa dor, que não sarava nunca. 
Descansou o corpo no sofá, mas a mente continuava estimulando a dor que todo seu organismo sentia. Os anjos passeavam no seu sonho e diziam: "É uma alma sem salvação."

Um comentário: