Pouso

Pousei por livre vontade
na palma da sua mão
E agora você decide
se é liberdade ou prisão.

domingo, 25 de setembro de 2011

As aves que aqui gorjeiam

É inevitável. O assunto do momento é o Rock in Rio. E, claro, é inevitável também que surjam as mais diversas opiniões, afinal o evento reúne arte e público de todo o mundo. Mas o que tem chamado atenção, mais do que os espetáculos diga-se de passagem, é o show da intolerância musical, do desrespeito e da rebeldia sem causa. 
Vejamos. O Rock in Rio surge em 1985, por ideia de Roberto Medina, que disse em entrevista ao G1 (http://migre.me/5MlmQ) que como o país vivia uma época de transição entre o governo militar e a democracia , pensou em criar algo que mostrasse a cara do Brasil. Passaram pelo palco os grandes nomes revolucionários da época: Paralamas, Barão Vermelho e a novidade interessante de conseguirmos trazer atrações internacionais. Quem melhor para simbolizar a transição política brasileira do que os Paralamas do Sucesso que cantaram o país e todo o seu lixo político durante os anos 80? 
Pois é. O criador do festival - que certamente é a pessoa mais indicada para falar sobre o evento - disse: "A juventude queria ir para rua, achava que seria bom mostrar a cara do Brasil." Caríssimos, o Festival de Música "Rock in Rio" não surge como um evento de rock, surge como o símbolo de um país que se libertava.  E, nossa! Que árdua é a tarefa de pintar a cara do Brasil. O Brasil que é uma bela mistura de cores, de cantos e de toques. No mesmo Brasil em que se dançou a capoeira para enganar os senhores de engenho e seus capatazes, se criaram românticos como Vinícius e revolucionários como Gregório de Matos. E o interessante é que, nesse jeito tão múltiplo brasileiro de ser... se encaixam tantas vozes, tantas batidas, tantos ritmos, tantos sons! 
O que aparece nas redes sociais e se dissipa na mídia em 2011 é a geração "Rebeldes sem causa" que resolveu - 26 anos depois - mudar o objetivo do Rock in Rio. Para esse grupo, o Rock in Rio foi feito para cultuar bandas "do metal pesado", principalmente internacionais, claro... bem a cara do Brasil, não é?
Artistas nacionais, como as cantoras Claudia Leitte, Ivete Sangalo, Tulipa Ruiz, Maria Gadú... sobem ao palco e, se não passam despercebidas, passam apedrejadas. Por serem brasileiras, apenas. Por trazerem no canto o som do tambor, do violão, a batida brasileiríssima que expressa de fato, a cara do Brasil. Em outra edição Carlinhos Brown subiu ao palco do RIR. E... tudo foi tranquilo como uma manhã de domingo. Os mesmos Paralamas do Sucesso que estiveram em 1985 e em 2011 já cantaram com a Banda Calypso e registraram para a TV. Sem preconceitos. Porque são brasileiros e entendem o que é ser brasileiro. Ser brasileiro é dizer: "Que bom que o Rock in Rio voltou ao Rio e que temos coisas boas para mostrar." Ser brasileiro é aplaudir os que são de dentro com o mesmo vigor que, por respeito, se aplaude os que são de fora. 
Claudia Leitte, Ivete Sangalo... no Rock in Rio? Vergonha! Nx Zero? Vaia! O brasileiro ainda está nos moldes da colonização. Abaixa a cabeça e deixa que as metrópoles tomem conta. Enquanto Claudia e Ivete trazem o toque que as mãos calejadas dos nossos escravos fizeram soar e toda a energia que os nossos índios traziam estampadas na pele e na dança, representando sim, como diz Medina, a cara do Brasil, muita gente tenta ser intelectual, culto demais pra achar bonito os toques de sua terra e só mostra o quão ignorante é e o quanto está ou esteve numa sala de aula estudando História do Brasil pra nada.
Eu? Eu fico com Gonçalves Dias: "Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá!"
Para mim, enquanto houver Brasil, ouvirei com muito orgulho o canto dos sabiás brasileiros.