Pouso

Pousei por livre vontade
na palma da sua mão
E agora você decide
se é liberdade ou prisão.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

À volonté

É chato este negócio das coisas mandarem na gente. Falo coisas no sentido de seres inanimados, que estão sempre coordenando nossas ações. Falo coisas também no sentido de superstições, outra chatice criada pelo homem pré-histórico, suponho eu.
Não é chato como o lápis está sempre exigindo que o apontemos? E como o celular perde carga? E como o carro só anda em troca de gasolina? E como temos que colocar os óculos para enxergar? E somos obrigados a prestar atenção no fogo aceso? A gente perde muito tempo obedecendo às coisas. É a cama que deve ser coberta,  a roupa que tem que ser lavada, o caminho que tem que ser interrompido por causa de uma escada na calçada. É o banho que pede a toalha, a toalha que pede Sol, o Sol que pede protetor, o protetor que pede as mãos, as mãos que pedem beijo, o beijo que pede amor, o amor que pede socorro. São os cabelos que pedem pente e o botão que só funciona se você pregar.
Pois hoje, só de molecagem mesmo, de pura meninice, não vou esquentar o café e ele será obrigado a me agradar frio. Vou obrigar a manga a combinar com o leite e o gato preto a me trazer sorte. Não vou colocar tinta na impressora e ela que não imprima, que implore cargas novas. Não ligo. E não vou lavar a louça, ela que se vire só, quero ver limpar-se sem minha ajuda.
Lava-se?
Não.
E o botão, sem mim, é pregado? 
Não.
E a cama vai ficar arrumada se eu não me ocupar dela?
Também não.
Pois bem, venci. Não funciono sem as coisas e as coisas também não funcionam sem mim. Seria um empate, mas venci porque tenho o poder de largar as coisas quando eu quiser e elas que se danem.
É bom retomar o controle da vida. À volonté.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Retroagindo

Posso afirmar que há algo que conheço sobre mim: sou indiscutivelmente apegada às coisas. Vivas ou não. Não importa; as coisas, quando posso tê-las, viram eu mesma. Sou parte das coisas e as coisas são parte de mim. É impossível largá-las.
Tenho em minhas mãos um livro, comecei a devorá-lo enquanto estava indo para casa, no ônibus. Me envolvi com o livro, me apaixonei pelo livro, pertenci a ele. Chegou o ponto em que eu deveria descer. Dali então haveria um trajeto a pé que me levaria até minha casa, porém achei muito desconfortável caminhar lendo, encoberta por um sol tão dolorido como é o das três da tarde. Passei do ponto e continuei no ônibus, mesmo sem saber ao certo qual seria a rota daquele momento em diante. Permaneci, porque não podia abandonar a leitura do livro e muito menos esperar chegar em casa para seguir devorando-o, iria sentir saudade, não gosto, seria o caminho mais longo e mais sofrido da minha vida. Espero chegar até o terminal mais próximo para tomar um outro ônibus que me deixe a poucos passos da minha casa, caminho que posso fazer lendo, não tem problema.
Por isso, às vezes não gosto de ver as pessoas. Me arrependo de encontrá-las. Sou demais os outros para esquecer os outros. Não gosto de vê-los indo embora. É uma pena ter nascido assim, desacostumada com partidas, com finais. É uma pena que eu tenha tentado mudar, pois tenho piorado bastante.