Pouso

Pousei por livre vontade
na palma da sua mão
E agora você decide
se é liberdade ou prisão.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

E um silêncio servindo de amém

Eu não sei  bem em nome de quem a gente faz um pedido desses. Mas, mesmo assim, eu quero fazer. É, na verdade, um pedido até egoísta, porque eu já não aguento mais estar diante de tanta crueldade, tanta má notícia, tanta barbaridade. Não sei expressar ao certo quantos de meus dias já foram estragados a partir do momento em que eu li um jornal ou assisti a um noticiário. Isso me indigna, me faz sentir monstro no meio de monstros; talvez por ficar calada e sair para realizar meus sonhos, depois de ouvir no rádio que no Pará uma criança de 8 anos foi baleada na cabeça no meio de uma guerra de traficantes que disputavam um ponto de venda. Ou ainda depois de saber que em Goiânia uma criança de 3 anos foi vítima de estupro e tentativa de homicídio. A gente sai de casa sorrindo tão naturalmente... mesmo depois de ver a foto do rapaz que foi espancado até a morte em Florianópolis. Porque era homossexual. Mentira. Não é porque ele era homossexual e também não  foi porque aquele rapaz morto a pauladas e pedradas era negro. Até quando a gente vai procurar justificar a violência que não tem justificativa? Não se mata ninguém pelo que ele é, se mata pelo que nós somos! Ou queríamos ser. A intolerância não é causada pela vítima, parem de dizer que o culpado de uma morte é o morto!
Eu não sei. Não sei bem o que quero dizer. Mas, hoje uma sensação me tomou às sete da manhã, ao ouvir as notícias no rádio: Estamos perdidos. Não havia boas notícias. Sei que muita gente morreu ontem e muita gente está morrendo por aí, agora. Alguns estão sendo machucados, como um ser humano que levou 38 pontos no rosto, graças a golpes de navalha, porque existe alguém no mundo que acha que ser travesti é errado, mas matar não. Também tem um menino, que ainda este mês - enquanto você ficava enraivecido porque o programa do Faustão não está tão bom ou porque seu time está mal no campeonato - foi vítima de violência sexual aos 7 anos. E isso não te amedronta, isso não tira sua alegria de viver. É tão natural.
Morreu porque é gay, morreu porque é negro, apanhou porque é mulher... parem! Será que ninguém enxerga que a grande causa mortis desse mundo é a falta de respeito pela vontade e condição do outro? Desculpem. Desculpem se isso tudo parece sem fundamento ou causa aparente. Mas não dá pra sair de casa todos os dias com um sorriso estampado no rosto, sabendo o que acontece com as pessoas por aí. Pessoas como eu, como meus amigos e minha família. Sabe com que me preocupo? - e por isso falei no começo que era um apelo egoísta - Me preocupo com o dia que a bala vier na minha direção. Na direção de alguém que amo. Me preocupo com o dia em que alguém de quem gosto estiver passando na rua, indo comprar um pão e de repente ser vítima de uma vontade louca de matar de qualquer um. Assim por nada, como aconteceu com o garoto do Bairro América. Sabem? A bala, a faca, a asfixia... tudo isso pode estar no seu peito daqui a pouco, pode estar no seu pescoço. E aí, sim. Será suficiente para apagar qualquer sorriso, qualquer sonho.
Eu já disse, não sei bem qual é o pedido que eu venho fazer. Mas eu queria que vocês parassem. Em nome dos baleados, dos esfaqueados, dos estrangulados, dos esquartejados, dos queimados, que são vítimas de ódio pelo simples fato de terem nascido e de buscarem a felicidade. Não sei, não entendo. Sei que cada notícia dessa me estraga um dia de cada vez. Céus, vocês estão matando todo mundo! Vocês estão matando muitos corajosos, muita gente que para ser feliz, só estava matando seus próprios medos. Eu não sei, não sei mesmo o que eu quero dizer com esse texto, mas eu peço que vocês parem. 
Que não adiante eu pedir, mas eu peço. Quando a bala atingir vocês e o rosto de vocês for desfigurado, talvez vocês peçam também. Não sei. Mas acho que João Bosco sabia, João Bosco viu o corpo estendido no chão. Olha, João Bosco, pelo menos meu silêncio já não serve de amém.


domingo, 27 de novembro de 2011

Uma questão de crença

Descobri que a vida é uma decisão simples: escolher se você crê ou não crê em Deus. Essa é uma escolha que me parece ser o fundamental se o que se pretende é viver. Eu disse viver. Não passar pelo ciclo da vida, repetindo as mesmas ações comuns - nascer, crescer, amadurecer e morrer - isso qualquer vegetal faz. Disse viver, no sentido de sentir o sangue correr pelas veias, o ar entrar e sair do pulmão, aproveitar, sentir, viver. E isso é uma questão de difícil resolução: você acredita em Deus?
Parece uma pergunta simples que pede uma resposta a que se chega com menos esforço que o merecido: sim, acredito. Mas a indagação me parece um pouco mais densa. Acreditar em Deus vai além de portar a ideia de que ele existe, que mora lá no céu e tarda, mas não falha. Para ser sincera, não conheço ninguém que realmente acredite em Deus. Não creio que é possível acreditar em alguém, sem acreditar em sua palavra. E pouca gente acredita no que diz ser a palavra de Deus. Deus é tão inacreditável que a gente faz questão de manter uma distância, um respeito demasiado, por exemplo, a gente escreve "Deus-com-dê-maiúsculo" porque Deus é próprio, é importante, é alguém acima de nós. A gente nunca iguala deus a gente. "deus-com-dê-minúsculo" não é pecado. É? 
De qualquer forma, maior pecado do que escrever deus-com-dê-minúsculo deve ser não amar o próximo como amo a mim, não saber perdoar sinceramente e não alimentar os que tem fome. Eu e muitos dos meus "irmãos" pecamos todos os dias, mas pecamos porque a gente é da geração Gregório de Matos que acha que a gente tá aqui é pra pecar mesmo e deus que perdoe, afinal, deus tá aí é pra perdoar mesmo. No que nos favorece a gente acredita. O perdão de deus, certamente existe. Dar a outra face, perdoar setenta vezes sete vezes ao dia, não julgar... existe? Na palavra. Na palavra que a gente certamente não acredita, porque se acreditasse colocava em prática. 
Mais além... vejo que temos medo de acreditar que deus existe. A vontade de cometer o erro, sabendo que se está errando, sabendo que vai machucar o outro, refletir e decidir: vou errar. E o arrependimento, a maior prova de nossa dúvida: vou pedir perdão... vai que deus existe mesmo. E da boca pra fora, a gente perdoa tanto e pede tanto perdão...
Às vezes, tenho pena de deus. Coitado de deus. E escrevo deus assim mesmo com-dê-minúsculo. Tenho certeza que isso é o de menos pra ele hoje em dia. Eu não me incomodaria se alguém escrevesse meu nome com-a-minúsculo, desde que esse alguém me amasse e acreditasse no que eu digo e se sacrificasse por mim. Muita gente escreve meu nome com-a-maiúsculo e me diminui tanto no coração. Se vocês estão incomodados porque eu passei a escrever deus com inicial minúscula, sinto muito, mas pensem que vocês têm feito coisas piores, inclusive chamado este que vocês respeitam tanto de mentiroso, pois vocês não acreditam em nada que ele fala.
Eu, pelo menos, mesmo escrevendo o nome dele com letra minúscula, converso com ele; e ele me mandou dizer que vocês são muito visão e pouco tato e pediu que vocês compreendessem que ele não consegue se manisfestar sem abstração. Pediu também que vocês parem de ensinar às crianças que ele é concreto, porque as crianças ficam querendo vê-lo e ele quer que sejamos mais tato, mais sensibilité. Não vai dar pra agradar aos olhos de vocês, infelizmente. 
Está dado o recado. E é tudo uma questão de crença.