Pouso

Pousei por livre vontade
na palma da sua mão
E agora você decide
se é liberdade ou prisão.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Movimento anti-modinha

Atenção você que foge das modinhas como dinheiro foge da mão. Não se iluda. De um jeito ou de outro, meu caro, minha cara, você é um ser humano na moda, em algum tipo de moda. Se todo o seu pânico está em não estar junto à multidão, lamento, você está em alguma multidão. Bem no meio, porque você com toda essa inteligência e essa capacidade de não se misturar com a gentalha, não toma a frente, nem encerra nenhum movimento, você está bem no meio.
Digo isso, porque assistindo ao Fantástico (sabia que isso não ia prestar), vi – entre mães orientais e uma atriz pelada na internet – um caso de uma moça que sofria bullying na faculdade por ser fã de Luan Santana. Não quero enfatizar a palavra “fã”, nem o nome do Luan Santana, acho que o problema está mais na relação “bullying-faculdade”. Não é bizarro? Um lugar que abriga diversos tipos de ideologias, estilos, cabeças e mundos, estar inserido em uma coisa tão ensino fundamental.
Às vezes, fico bem preocupada com essas pessoas que se incomodam tanto com o gosto dos outros. De um modo geral: gosto filosófico, religioso, musical. Na cabeça desses intelectuais que agridem uma pessoa por ela ter determinadas preferências musicais, essa cidadã deve ser excluída do mundo porque ela faz parte das ... modinhas. Só que. Vou desafiar essas pessoas tão imunes à contaminação do Ai Se Eu Te Pego, tão vacinadas contra o rock colorido, tão convictas de sua formação intelectual, a me explicar quantas delas há no mundo. Sim, porque me parece que se vestir de preto e fazer solos de guitarra não é muito original, milhões e milhões de pessoas no MUNDO fazem por aí: modinha mundial. Fumar maconha, tomar vodka pura, se reunir para falar mal da música brasileira, fazer uma tatuagem... modinha. Falar mal do Neymar: modinha. Dizer que Luan Santana é vesgo e que Claudia Leitte imita Ivete: modinha. Colocar frases de Renato Russo e dizer que ele é genial... Ah, pedir que Deus mande Mamonas Assassinas de volta e leve Restart, mo-di-nha. Vocês, alérgicos a modinhas, entram em mais modinhas do que imaginam. Suas roupas são modinhas, suas tentativas de ser originais são modinhas, seus cortes de cabelo são modinha, as músicas que vocês ouvem são modinha também. E o pior: seus discursos. Seus discursos são a modinha mais clichê e burra de todas as modinhas. No tal caso, do tal bullying, o agressor dizia que a moça estava brigando por alguém que nem sabe que ela existe... fiquei pensando se aquele filósofo, intelectual, tão imune ao fanatismo não conseguia perceber que o que ele estava atingindo não era o artista, era o gosto de alguém. Aprendam: não se pode, em hipótese nenhuma, criticar o gosto de alguém, suas preferências. Gostar é algo muito íntimo, ninguém deve invadir o íntimo de alguém sem permissão.
Fiquei traçando o perfil daquela criatura. Aposto que ele não gosta de filmes brasileiros, porque a geração é a mesma, a geração “anti-modinha” que é mais modinha que qualquer outra, porque na tentativa de criar personalidade, só repete o mesmo discurso clichê de sempre. Há quantos milênios a frase “ser fã de alguém que nem sabe que você existe...” circula por todo o planeta? Que coisa velha, que coisa sem personalidade, sem criatividade. Que incapacidade de argumentação. Eu esperava mais da geração anti-modinha. Eles prometeram mais. Achei que eles seriam gênios da música, mas eles não compõem nada interessante, nem inventam novos solos na guitarra, só reproduzem os velhos. Achei que o rapazinho que atirou uma pedra no músico do Restart ia postar um vídeo no youtube mostrando como se faz música de verdade. Só que depois percebi que ele também não sabe. Talvez ele nem saiba que nos anos 80, uma banda também trouxe cor pro rock e que o nome dessa banda era Blitz e que eles fizeram história na música brasileira e que os queridos Mamonas Assassinas que todo mundo ama e respeita tinham um estilo bem parecido de vestimenta. E o Dinho OuroROCKÉPreto? Então o que o Cazuza fez no Rock in Rio de blusa roxa e fita vermelha na testa não foi rock? Vocês, tão contra o racismo, tão contra a homofobia, tão a favor das liberdades, rotulam música por cor? Achei que a geração anti-modinha, que não lê Crepúsculo, lia pelo menos um Nietzche por mês, que sabiam de cor a biografia de Saramago, que conheciam todo o pensamento socrático. Mas não. Eles estão lendo o que as livrarias propõem na estante ou o que todos os seus companheiros de anti-modinha leem. Eles não veem novela, mas acompanham toda a sorte de seriados internacionais possíveis. Tão original. E o argumento deles será sempre: Gosto de seriados internacionais. Não tem nada a ver com os outros, é porque eu gosto e pronto. Pois, para mim, o recado é simples: guarde esse “eu gosto e pronto” e usem quando o assunto for os outros. Os outros também gostam e pronto. Não é sensacional?É uma geração que vem num Titanic, “remando contra a maré”. E eles vão encontrar um iceberg chamado respeito ao próximo, e não vão saber desviar. E vão se quebrar ao meio, morrer afogados, congelados, bem rock and roll e hollywoodiano. Essa onda de “os meus ídolos são melhores que os seus” é tão século dezenove. É o mesmo que esse povo que fica se matando para ver quem tem o melhor time. Ai, gente, vocês são tão infelizes.

sábado, 11 de agosto de 2012

Desmudando

Quando a gente perde o fio da meada da vida, a ponta do durex... passa do ponto, queima... estraga tudo  ou está prestes a. Qual é a hora exata? Tô procurando... é árduo. O que eu queria mesmo era saber onde eu deixei meu gosto por minhas pequenas coisinhas. Eu gostava de dançar, de encenar, gostava de tocar, de estudar, de sair e sorrir. Aliás, ainda gosto! E é isso que me incomoda. Nessas tentativas sucessivas de mudar e esse pensamento forte, essa coisa obsessiva... essa brincadeira acabou dando certo. De tanto tentar mudar, mudei. E me arrependi. E agora quero desmudar. Perdi a doçura. Perdi o tempo do abraço que lembro que, aos 16, na escola, era o preferido da sala inteira. Perdi alguma coisa no olhar também que havia durado até a faculdade, o pessoal gostava. Perdi o afeto gratuito pelas pessoas: sempre fui de escrever carta sem motivo, dar presente, oferecer minhas coisas, fazer favores, abraçar apertado, encher de beijo. Parei. Não consigo mais. Tive motivos, nem todo mundo entendia e foram muito duros comigo. Tanto, tanto que machucou e aí fui obrigada a me proteger. Devagarzinho fui aprendendo a desamolecer. Eu me sentia melhor quando conseguia mandar carta sem motivo e fazer visitas surpreendentes. Inventei de querer agradar aos outros e me perdi. 
Agora pra me achar de novo tá difícil. Rezo para ter me escondido e não ter me matado. Sabe aquele parente que saiu pra comprar pão há quinze anos e nunca mais voltou? Que a família inteira ainda mantém a esperança de encontrar vivo, embora a lógica diga que ele está morto? Então, sou minha família esperançosa. Sou aquela que não quer ouvir a lógica. Eu não morri, só estou desaparecida. 
Uma necessidade enorme de mim ressurgiu. Os outros que fiquem desagradados. Eu é que não posso me desfazer de mim, ora essa. Caiu a ficha. Não tá hora de subirem os créditos, porque minha história chegou no clímax agora. Que nem no filme novo do Batman, que todo mundo pensa que ele morreu e ele aparece lindo e barbeado jantando com a Anne Hathaway. 
Pois então, vou acertar os pontos da minha vida, colocar os pingos que eu tirei dos meus is. Não serei bruta como os brutos que me machucaram, vou consertar minhas asinhas e procurar gente com a asinha quebrada pra ajudar a consertar. 
Meu Deus, escrever me liberta. Abri o caderno morta e termino este texto viva, vivíssima, cheia de esperança, cheia de mim de novo. Escrever me arruma todas as chaves e me tira as correntes, lasca os cadeados. Deus foi esperto... me fez perder tudo, menos a vontade de escrever, pois sabia que, escrevendo, eu acharia tudo de novo. Agradecida.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

E essa agora

Tô te escrevendo pra perguntar que diabos tá acontecendo com você. Enlouqueceu? Qual é a sua, meu rei? Até onde eu sabia você não era dado a sensibilidades. Era esse o seu jogo. Sempre foi. Ganhar de mim na frieza. O lance todo era eu me derretendo toda e você com uma pistolinha de gelo solidificando qualquer gota de amor que se distraísse no ar. E qual foi agora? Você resolveu responder as porcarias das mensagens, prestar atenção nas minhas manias e até mudar a droga do seu gosto musical. Quem mandou? Qual é o plano? Eu sei que tem um plano, você não dá ponto sem nó. Da última vez que andou me ligando demais queria desafogar o peso da consciência. Olha, eu não vou carregar o peso de ser quem você é. Se nem você aguenta, é problema seu, não descarregue em mim, se vira por aí que quando você era do mal eu sempre me virei só e somente só. Nunca precisei de você me respondendo mensagem, ligando pra dar boa noite, sendo o primeiro a dar parabéns no meu aniversário, me mandando chocolate sem motivo, aparecendo na minha casa de surpresa, alisando minha franja. Nunca precisei. Sempre precisei. Mas nunca tive e não é agora que você vai querer me dar. Você sabe que eu tropeço, mas não caio nessa.
Eu sei que depois que eu tiver na sua mão, você vai me apertar e colocar um bocado de gente na sua mão até eu cair e ser amparada pelo mindinho do pé - que é pra ficar mais fácil de chutar.
Pensa que eu esqueci a época em que eu não era prioridade? Pensa que eu não notei que bastou eu reclamar pra eu ser prioridade e bastou eu perdoar pra eu voltar pro fim da lista? Eu reparei. Posso não saber a cor das suas roupas quando está comigo, mas a cor da sua alma eu fotografo de cara. Conheço você mais que todos os seus super amigos rangers conhecem. Eles nem imaginam quem você é na real.
De mim você tenta, mas não esconde nada. E, falando nisso, eu quero saber ainda: Você enlouqueceu? Que história é essa de ouvir as minhas músicas, ler os meus poetas e ficar acumulando motivo para lembrar de mim? Para de assistir aos meus seriados preferidos, para de ler o que eu leio e de ficar olhando foto minha. Você não tá apaixonado por mim coisa nenhuma. Não me inventa essa agora. Eu já me acostumei que quem ama aqui sou eu e que nunca será recíproco. Da próxima vez que eu pegar você com saudade de mim, eu te mato. De saudade, inclusive. Se você não parar com essa sensibilidade repentina - oxe, você nunca foi assim! - eu te deixo de lado, te ponho no canto. Tô procurando motivo pra te largar de vez e olha que eu acho. Se eu não achar, eu invento. E você do jeito que anda, é bem capaz de chorar. Faz como nos velhos tempos: mente pra mim, ignora, despreocupa e desconhece quem eu sou.
Tô te avisando, a gente não nasceu pra ficar junto.
Um beijo e não esqueça: suba os muros.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Um texto tardio

Senta aqui ao meu lado. Agora. Um pouquinho só. Pronto. Assim, de pertinho mesmo, e vai falando mais sobre você enquanto eu tento massagear tua mão e vou contando o número de foras que você já me deu. E que, embora sejam números, não têm nenhum valor matemático... não aumentam nem diminuem nada. Absolutamente. É que, quando o assunto é você, o tema nunca é quantidade, com você nunca dá pra medir. É inútil, por exemplo, tentar mensurar o quanto é gostoso olhar teu sorriso ou o quanto é encantador entender a pessoa incrível que você esconde e que me dá vontade de descobrir cada vez mais.
Gosto quando você fica um pouquinho aqui e que eu não consiga definir o quanto isso é bom. Fica mais um pouco aqui do meu lado e vai falando mais e mais sobre você. E vai jogando fora essa insegurança e vai entendendo que a gente só chama pro nosso lado quem a gente gosta de verdade. Segura minha mão e vai se convencendo de que não há outro motivo pra eu querer você do meu lado que não seja o fato de você ser uma pessoa amável. Pega uma caneta e risca na minha mão cem vezes que alguém te ama. E vai deixando que eu te faça sorrir que é para a gente espantar as dores. E vai percebendo o quanto a gente se diverte e como isso faz bem. E não solta a minha mão, mesmo que a massagem esteja ruim. E vamos ficar aqui o tempo suficiente pra dar saudade, o tempo necessário pra pedir uma volta.
Engraçado que você foi a primeira pessoa que me fez sentir vontade de admirar o céu estrelado. Eu nunca tinha parado pra reparar na beleza de um céu cheio de estrelas, ainda mais com você do meu lado e ainda mais com seu sorriso aberto e ainda mais com sua voz tão pertinho! Será um céu para não se esquecer jamais.
Como é bom abrir as cortinas do teu palco. E olhar o que nem todo olho vê. Para enxergar você direitinho tem que mergulhar, e mergulhar por inteiro e com cuidado que é pra não machucar: as pessoas mais raras são as mais fáceis de quebrar.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Eu te amo, mas não gosto mais de você.

Agora eu sei por que demorei tanto para ver "Um Dia" (One Day, 2011). Sempre fui admiradora da Anne Hathaway, desde "O Diário da Princesa" - sim, na adolescência fui tiete da Princesa Mia e leitora dos livros da Meg Cabot - e esse foi o primeiro motivo que me levou a querer ver "Um Dia", que esteve em cartaz no cinema ano passado, mas eu e os amigos enrolamos daqui, enrolamos dali e não vimos. Um ano depois, estávamos eu, a cópia do filme, a cópia do filme e eu, num cotidiano fim de tarde.
Para quem ainda não viu o filme e pretende ver, vou logo alertando que vou contar final e tudo a que tenho direito. A história é basicamente esta: um casal se encanta, se apaixona e tal, porém no dia seguinte devem se separar e seguir seus destinos. Porém, o sentimento que os une é algo forte demais e... blá. Durante 20 anos são mostrados flashes da vida dos dois que, embora nitidamente se amem, não formam o casal tão esperado. Ele vive envolto em mulheres e leva aquela típica vida do jovem do cinema americano, já ela leva a pacata vida sem graça das mocinhas americanas e, ao melhor estilo Anne Hathaway, passa boa parte do filme mal arrumada, desleixada com o visual para só depois mostrar sua beleza peculiar. Mas o que me chamava atenção vendo o filme, era como em 20 anos a personagem da Anne não consegue se juntar com a personagem do Jim. E eles se amam. Nitidamente. Sem sombra de dúvidas. Mas não ficam juntos. Porque em vinte anos, um não consegue ser o que o outro quer. Ele procura em outras - várias - o que queria nela e ela vai morar com um cara nojento e fracassado que nem de longe era o que ela amava, mas talvez tivesse o que ela queria em um homem.
Tenho dado um tempo aqui no blog para trabalhar no livro de contos que inventei de montar, mas, ao ver "Um Dia", não resisti. É que... é até difícil pensar e escrever isto, mas: já aconteceu com vocês de passar a vida inteira tentando ser perfeito para alguém e não conseguir? Tipo, não conseguir nunca? É se mudar e se moldar o tempo inteiro para uma só pessoa no mundo e isso não funcionar. Nunca. É jogar uma vida inteira fora tentando desenterrar um tesouro que parece já ser seu. Doía ver a personagem da Anne, Emma, tão ouvinte, tão paciente, tão "ali" para aquele cara, se moldando, se esforçando e, de repente, olha ele lá, casando e tendo filhos com alguém que nem em um ano faria o que ela fez por ele em um dia. Doía porque eu sei o que é. E me vi ali numa versão mais bonita, mais rica, mais magra e melhor maquiada. Sei o que é se fazer presente o tempo inteiro, corpo, alma, coração e, mesmo assim, não ser vista. Sei o quanto é suado, o quanto é nervoso, o quanto é complicado. Tentar o tempo todo adivinhar quais são as cores, os gestos, as palavras e, de repente, chegar alguém e sem o menor esforço, num estalar de dedos, consegue. Toma, conquista e leva.
Mas nem tudo estava perdido - no filme. Há um momento no meio dos 20 anos em que eles ficam juntos. Sim! Resolvem se aceitar em defeitos e qualidades e ver que o melhor deles é um para o outro. Primeiro: é um filme. De romance. Segundo: é a Anne Hathaway e tá para nascer o diretor que vai acabar um filme sem dar um homem para ela. Então, o esperado final feliz aparentemente chegava. Mas ela morre. Atropelada. E é por isso que eu não ando de bicicleta.
Ela morrer é uma droga, do ponto de vista da fã que aqui vos fala. Mas... o lado blogueira admite: ela morrer foi ótimo. Me dá uma tranquilidade cômoda, é uma dose de realidade. Anne ao menos passou umas duas cenas com Jim. E eu nem isso. Porque todo e qualquer esforço tem sido inútil. Como dizia Florbela em seus sonetos: Ah, como é vão!
Já fui não sei quantas eu de mim mesma e nenhuma delas agradou e nunca agradará e a parte mais amargurada de mim é a que vê alguém chegar e levar, sem entrada, sem juros e com IPI reduzido. Nunca ser a pessoa perfeita e nem chegar perto disso... dá vontade de chorar. Mas não tenho chorado. Aliás, faz tempo que eu não choro. Eu tenho sido meu próprio divã e há dias quando me olho no espelho vejo uma diferença enorme. Consegui implantar a frieza que sempre quis, consegui revestir o coração, segurar o dedinho na hora de querer mandar mensagem, segurar as palavras ao querer remeter cartas. Consegui diminuir meu grau de sensibilidade e me distrair com um pouco mais de futilidade. Tô trazendo a humanidade mais crua para minha vida. O tão famoso pão e circo romano. Talvez isso também justifique a ausência de textos aqui. A inspiração não é mais tão frequente, já que minha maior inspiração era o amor e não tenho amado tanto. Não mais. Enjoei. Me podei quase que por inteiro, porque em 21 anos não lembro de um dia em que amar valeu a pena. Só me rendeu textos. Para os outros. Agora os outros que amem e escrevam, eu quero é dar um bom mergulho no mar, ver o vôlei, o futebol, dançar e dormir até mais tarde, não quero fazer como Rimbaud e Verlaine que só quando descobriram que se destruíram é que foram exclamar: "Que se dane a poesia! Que se dane a glória!" Não sei esperar me acabar, que se danem agora. A poesia, o amor. Danem-se.
Esse filme me alertou. Muita gente deve ter saído do cinema apaixonada e querendo não perder mais tempo e ligar para os grandes amores de suas vidas. Eu não. Levantei do sofá convicta de que eu não sou o amor da vida do amor da minha vida. E mais: levantei do sofá lembrando como eu passei praticamente toda a minha vida tentando ser ideal para alguém que nunca, nunca, nunca, nunca.. tá. Alguém que já é de alguém. De alguém que nunca fez metade, um terço, do que eu fiz. Fazer o quê? Desistir. E tenho forças, sou uma massa de modelar. Ao amor da minha vida, a melhor frase do filme: Eu te amo, mas não gosto mais de você.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Não atenderemos

Interrompemos sua programação para informar que tem gente me ligando sem saber que não é bom negócio me ligar. Essa alma parece ser boa demais, portanto está resolvido: não vou atender. De jeito nenhum. Mentira, tem um jeito sim. Atendo a essas ligações com uma condição: se começar, não acabe. Só que - todo mundo sabe que quando eu uso o querido "só que" é porque estou prestes a desistir de algo. Então, como eu dizia, só que é óbvio que vai terminar, e o porquê vocês já sabem: o velho defeito de não levar o menor jeito para este jogo chamado relacionamento amoroso, vulgo "namoro". Estou sem paciência, absolutamente sem paciência. Lá vem alguém de novo; alguém legal, fofo, inteligente, gentil, engraçado. Alguém que em 2 meses já vai ter percebido que não foi boa coisa ter me ligado. Alguém que não vai entender minhas vontades súbitas de ir ao mar, que vai ter que lidar com meus cancelamentos repentinos de programas porque do nada me deu vontade de escrever, de ler Clarice ou de simplesmente ficar deitada na cama olhando fotos no meu mural. Alguém que não vai saber trocar cartas nem escolher presentes. Essa pessoa, em 2 meses, vai pedir que eu fale mais baixo e que eu atenda o telefone, por favor. Vai dizer que eu trabalho demais e que nós não conversamos. Vamos ter que ir a almoços de família e a minha inabilidade em ser simpática vai ser constrangedora como sempre.
Estou sem paciência, absolutamente sem paciência.
O negócio todo é que nem eu me acostumei com algumas manias ainda. Eu me tolero pra caramba, me perdoo    e tudo mais. Bacaninha, ótimo. Mas eu sei que não sou o tipo de pessoa que seja ideal de se ter por perto. Me conheço. No fundo, todo mundo se conhece. Nunca completamente, mas se conhece. Ainda hoje descobri que não dá pra cantar enquanto mergulhamos. Incrível. E isso é padrão. Cada um sabe muito de si, ainda que sempre haja mais para se saber. Todos os detalhes de mim só eu sei: a maneira de pentear o cabelo, o modo mais confortável de dormir, a cor que me cai melhor, quando vou ficar doente, o que me faz bem quando sinto febre, a comida que me vai me dar alergia, o amigo que eu vou perder, o amigo que eu vou ganhar, o dia que não vai ser bom. Isso tudo é de uso pessoal e intransferível. Chegar alguém agora? Agora que eu já não acredito mais em romances? Agora que eu não consigo mais ser fofa, carinhosa, atenciosa e todo aquele blá blá blá que todo início de namoro pede? Agora é noite. A alminha é realmente boa, mas algo vai dar errado num futuro próximo. No primeiro encontro, eu estarei desconfiada, no segundo, estarei desconfortável, no terceiro, vou estar impaciente, imaginando o que motivará nossa separação.
É assustador, mas parece que eu não estou nem um pouco disposta a recomeçar, por melhor que seja a pessoa que está ligando, mandando mensagens e entregando chocolates. 
Tomara que o Universo me mande paciência de volta e que ela não venha de cavalo branco e vestida de veludo. Porque eu não tô merecendo.

sábado, 28 de abril de 2012

Pensando alto

Quero deixar claro que o texto que segue é altamente pessoal e não tem nenhuma proposta literária ou ficcional. O caso é que eu realmente preciso dizer que eu estou com dor de cabeça. Eu sei, todo mundo tem dor de cabeça. Mas eu nunca tive com tanta frequência. Em 21 anos, eu tive dor de cabeça consequente de gripes, resfriados, dengues, dores de dente, de ouvido, pedras no rim, catapora, enfim; mas duas semanas seguidas de pura dor de cabeça sem fim, por motivos que eu até então desconheço, nunca. Vim aqui tentar descobrir. Nesse adorável irrelevante texto. Sim, minha fonte de descoberta de mim mesma - e dos outros também - é escrever.
Duas semanas. Mais de dez dias de uma dor de cabeça fiel, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que à morte ela me leve. Por quê? Será que é a obsessão que 2012 me trouxe de crescer? Prometi para mim um ano de amadurecimento completo e isso implica responsabilidades. Correr atrás de um bocado de coisa que eu tô querendo faz tempo, sejam materiais ou sentimentais. Botei na cabeça que tá na hora. Crescer dá dor de cabeça.
2012 me ensinou em três meses, assim rapidinho, que pessoas surgem em nossas vidas, saem de nossas vidas e não podemos nos despedir delas de uma vez, mas também não podemos esperar que elas voltem. Você não pode chorar. Você tem que ser forte. Mesmo estando com dor de cabeça. Há duas semanas ininterruptas. Desapego dá dor de cabeça.
Como eu queria que Clarice estivesse viva. (Me desculpem a desorganização desse texto, estou claramente sem veias literárias, só pensando alto). Clarice deveria estar aqui e ser minha amiga; mais do que já é. Eu queria conhecer Clarice de mão incendiada, foi nessa época que ela ditava as coisas para os amigos datilografarem, pois a mão estava impossibilitada. Eu queria ser essa amiga. Eu queria! E eu não estaria com dor de cabeça, porque Clarice estaria falando pra mim aquelas coisas lindas, minhas. Na primavera!
Certamente Clarice não gostaria de mim e isso me daria dor de cabeça. Imaginar que alguém que eu quero que goste de mim não goste de mim me dá dor de cabeça. Por duas semanas. Sem interrupção. Insegurança dá dor de cabeça.
Perdoem mesmo. Mas eu sabia que ia funcionar. E funcionou. Descobri. Meus próprios planos me deixam com dor de cabeça. Eu criei um monstro. Vocês que já cresceram e já desapegaram: a dor de cabeça passsa ou é para sempre, tipo um novo órgão do corpo de um adulto?
Ai! Que dor de cabeça...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Teoria das Variantes

Em busca daquela sensação de, quando a noite chegar, deitar, olhar para o teto e dizer: "Hoje fiz tudo certo.": tem sido assim? Digo isso, trabalhando com as inúmeras possibilidades do que pode ser "noite", "deitar", "teto" e "certo". Sim, porque os conceitos podem variar conforme também são variantes as mentes e os hábitos. Plenamente variáveis.
Noite, por exemplo, traz - escondidas ou exibidas - tantas possibilidades... Talvez a noite seja o único momento do dia em que se faz valer o direito de: escolher em que pensar. O ser humano tende a martelar um pensamento só, único, dissimulado e teimoso toda noite. É o corpo aproveitando para ter com a mente aquela conversa que, durante o dia, o tumulto, o sol, as vozes, o computador, a TV, o amigo, o patrão, a família, ninguém deixou. Ou não. Há a tendência de evitar o pensamento à noite. É botar um perfume, calçar um salto, vestir algo que te deixe ao máximo diferente de você, inventar um cabelo e: viver! Preferencialmente, sem pensar, porque - convenhamos - pouco vive quem muito pensa. Ou nem isso. Tem noite que é só ausência, tem noite que é medo, tem noite que é rua, tem noite que é lixo. Tem noite que é fazer o pão. Tem noite que é tiro, queda de avião. Tem noite que é beijo. Começo, inteiro, fim.
E se faz certo? Depende. Deite-se. Como? A sós ou a mais, deitar por quê? Quais são as pretensões do seu corpo ao deitar? Já pensou? Deitar é uma ação tão automática - a sós ou a dois. Quando se vê, já se está deitado. É que nem magoar alguém. Levantar é diferente. Exige pensamento, vontade, necessidade, esforço. É que nem pedir desculpa a alguém. Digamos que o corpo deita e a alma levante e - que interessante! - se bem se observar a alma nunca deita e o corpo nunca se levanta só - a não ser por hipnose ou sonambulismo (?). Levantar exige esforço mental. Deitar não. Coisas de humanos. Somos estranhos e mal explicados.
E teto? É noite e... qual é o seu teto? É cama de gato? Branco com lâmpadas coloridas? É azul com mais estrelas, bosques com mais vida, no teu seio mais amores? Um copo de vodca? Tomemos teto como aquilo que te abriga. De novo há variáveis. E possibilidades... várias... muitas. Já vi gente se abrigar no nada e fazer daquele nada tanto que...? É como aquele abraço que não te diz nada, mas você cabe, conta com ele mesmo assim. Tem teto que é chão, porque tem gente que é de cabeça para baixo. Tem teto que é lona. Tem teto que não tem.
Sobre o certo não é certo falar. As definições de certo, certamente, já complicaram as vidas de muitas pessoas por aí. O certo sofrerá variações que nem a infinidade numerológica conseguirá acompanhar. Uma mesma pessoa pode achar que é certo mentir e que é errado mentir num mesmo minuto: basta que ela tenha sido enganada e que ela precise enganar. O certo é a abstração mais incerta que existe - se é que existe (?). O habitual pensar "Hoje eu fiz tudo certo.", nunca - NUNCA - estará pleno e fechado. Não é álgebra. O "fazer-tudo-certo" está passível de julgamentos, ele está altamente posto em dúvida no que nós chamamos de "olhar-do-outro". Não há jeito. Seja na noite pacata ou eufórica, olhando a lua ou o copo de vinho, deitado de lado ou de pé, o máximo que você vai atingir, em termos de sensação, é a que por aqui chamamos de: dúvida.
Notícia má: no dia em que você refletir e não sentir dúvida, sua cabeça fechou-se em certeza de tudo, ou seja, vazia de tudo, porque pelo que temos vivido - e ainda somos os mesmos e vivemos - vejam que fantástico: o certo... não... existe.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

De lições e provas

Esse negócio todo de aprender é engraçado. A gente passa a vida toda aprendendo a fazer coisas que, no fim, ou não servem para nada ou a gente acaba errando ao tentar fazer. Acertar é tão difícil! É como se a vida fosse feita de lições e provas, igual na escola e, assim como também é na escola, a gente pensa que aprendeu bem as lições. Até que chega o dia da prova. Nao é que a gente reprove sempre, mas... gabaritar a prova, sem errar um x, sem trocar um nome, sem esquecer uma fórmula... ah! É difícil demais.
São lições, lições e mais lições. Ouvimos conselhos, lemos muito, vemos o pessoal errando, cantamos como se orássemos a cada verso, guardamos filosofias. Pra quê? Na prova da vida raramente tem recuperação. Como diz a garotada, a gente fica. Na prática, é a maneira como falamos às crianças que tem que amar o próximo como a si mesmo; na nossa vez, porém, na hora de aceitar o outro como ele é... cadê que a gente consegue? Ca-dê?
A gente fica cantando e fica pedindo e fica rezando e criticando e consertando todos os defeitos - dos outros. Mas cadê que a gente muda?

A propósito, olhe ao redor.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Lei da ação sem reação

Primeiro era a incerteza, depois foi o acidente. E, de repente, assim mesmo, de última hora, sem mais inteiro ou meio mais, ele estava lá. E a vida não perde a mania de fazer com que a gente esteja sempre onde a gente tinha mesmo que estar, por natureza do destino- para quem acredita- , por força do acaso - para quem confia - , por tudo ter que dar errado para só assim dar certo... que seja: a vida se encarrega de fazer o que a gente, por si só, não faria. E então, voltemos a ele, despretensioso, sorridente, feliz,  lá. E ela, despretensiosa, feliz, lá também. Quem imaginaria, no meio daquele tanto de gente, daquelas tantas vozes e risadas, daquele barulho todo, daquela alegria espalhafatosa que eles se olhavam? Ninguém. Era um olhar demasiado cúmplice para ser perceptível. Era um olhar tão "combinadinho", "acertadinho", íntimo. Se perguntado, diriam certamente que eles nem se conheceram. Mas trocaram algumas palavras... cúmplices e íntimas, tanto quanto os olhos permitiram. 
E naquele trocar-de-palavras-de-despedida-e-chegada (duas ou três frases, no máximo), muita coisa se passou. Dentro dele. Dentro dela. Fora dele. Dentro dela. Quase nele. Dentro dela. A intimidade que se deu naquele momento, anos de conversa não trariam. Era uma chance para os dois. Entretanto, chances não podem ser desperdiçadas, nem descartadas, nem se pode deixar que chances fiquem esperando. Ele se esqueceu de mencionar que a voz dela era linda e que o jeito que ela sorria era engraçado e que ele havia reparado em seus cachos. Esqueceu-se também de dizer que poucas mexeram com ele da forma como ela mexeu. 
Então, ele respirou fundo. E prometeu a si mesmo que não perderia a próxima chance. Resolveu que a abraçará tão forte da próxima vez que quem estiver olhando vai dizer "há dois corpos matando uma saudade." Resolveu que não diria muita coisa, só a ouviria falar, porque isso seria canção para ele. Anotou para não esquecer: devo fazê-la sorrir. 
Ele poderia ligar e adiantar esse encontro, seria uma boa ideia. Mas... e a graça da saudade? Da oportunidade espontânea? E os olhos que tanto querem surpresa? Não. A vida faz melhor que ele. A vida entende mais. A vida tem mais experiência de vida. E ele lhe agradeceu profundamente por ter a ele ensinado: espera que é teu.