Pouso

Pousei por livre vontade
na palma da sua mão
E agora você decide
se é liberdade ou prisão.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Teoria das Variantes

Em busca daquela sensação de, quando a noite chegar, deitar, olhar para o teto e dizer: "Hoje fiz tudo certo.": tem sido assim? Digo isso, trabalhando com as inúmeras possibilidades do que pode ser "noite", "deitar", "teto" e "certo". Sim, porque os conceitos podem variar conforme também são variantes as mentes e os hábitos. Plenamente variáveis.
Noite, por exemplo, traz - escondidas ou exibidas - tantas possibilidades... Talvez a noite seja o único momento do dia em que se faz valer o direito de: escolher em que pensar. O ser humano tende a martelar um pensamento só, único, dissimulado e teimoso toda noite. É o corpo aproveitando para ter com a mente aquela conversa que, durante o dia, o tumulto, o sol, as vozes, o computador, a TV, o amigo, o patrão, a família, ninguém deixou. Ou não. Há a tendência de evitar o pensamento à noite. É botar um perfume, calçar um salto, vestir algo que te deixe ao máximo diferente de você, inventar um cabelo e: viver! Preferencialmente, sem pensar, porque - convenhamos - pouco vive quem muito pensa. Ou nem isso. Tem noite que é só ausência, tem noite que é medo, tem noite que é rua, tem noite que é lixo. Tem noite que é fazer o pão. Tem noite que é tiro, queda de avião. Tem noite que é beijo. Começo, inteiro, fim.
E se faz certo? Depende. Deite-se. Como? A sós ou a mais, deitar por quê? Quais são as pretensões do seu corpo ao deitar? Já pensou? Deitar é uma ação tão automática - a sós ou a dois. Quando se vê, já se está deitado. É que nem magoar alguém. Levantar é diferente. Exige pensamento, vontade, necessidade, esforço. É que nem pedir desculpa a alguém. Digamos que o corpo deita e a alma levante e - que interessante! - se bem se observar a alma nunca deita e o corpo nunca se levanta só - a não ser por hipnose ou sonambulismo (?). Levantar exige esforço mental. Deitar não. Coisas de humanos. Somos estranhos e mal explicados.
E teto? É noite e... qual é o seu teto? É cama de gato? Branco com lâmpadas coloridas? É azul com mais estrelas, bosques com mais vida, no teu seio mais amores? Um copo de vodca? Tomemos teto como aquilo que te abriga. De novo há variáveis. E possibilidades... várias... muitas. Já vi gente se abrigar no nada e fazer daquele nada tanto que...? É como aquele abraço que não te diz nada, mas você cabe, conta com ele mesmo assim. Tem teto que é chão, porque tem gente que é de cabeça para baixo. Tem teto que é lona. Tem teto que não tem.
Sobre o certo não é certo falar. As definições de certo, certamente, já complicaram as vidas de muitas pessoas por aí. O certo sofrerá variações que nem a infinidade numerológica conseguirá acompanhar. Uma mesma pessoa pode achar que é certo mentir e que é errado mentir num mesmo minuto: basta que ela tenha sido enganada e que ela precise enganar. O certo é a abstração mais incerta que existe - se é que existe (?). O habitual pensar "Hoje eu fiz tudo certo.", nunca - NUNCA - estará pleno e fechado. Não é álgebra. O "fazer-tudo-certo" está passível de julgamentos, ele está altamente posto em dúvida no que nós chamamos de "olhar-do-outro". Não há jeito. Seja na noite pacata ou eufórica, olhando a lua ou o copo de vinho, deitado de lado ou de pé, o máximo que você vai atingir, em termos de sensação, é a que por aqui chamamos de: dúvida.
Notícia má: no dia em que você refletir e não sentir dúvida, sua cabeça fechou-se em certeza de tudo, ou seja, vazia de tudo, porque pelo que temos vivido - e ainda somos os mesmos e vivemos - vejam que fantástico: o certo... não... existe.

2 comentários:

  1. Me incomodou profundamente. Mas achei interessante. M.

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