Pouso

Pousei por livre vontade
na palma da sua mão
E agora você decide
se é liberdade ou prisão.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Eu te amo, mas não gosto mais de você.

Agora eu sei por que demorei tanto para ver "Um Dia" (One Day, 2011). Sempre fui admiradora da Anne Hathaway, desde "O Diário da Princesa" - sim, na adolescência fui tiete da Princesa Mia e leitora dos livros da Meg Cabot - e esse foi o primeiro motivo que me levou a querer ver "Um Dia", que esteve em cartaz no cinema ano passado, mas eu e os amigos enrolamos daqui, enrolamos dali e não vimos. Um ano depois, estávamos eu, a cópia do filme, a cópia do filme e eu, num cotidiano fim de tarde.
Para quem ainda não viu o filme e pretende ver, vou logo alertando que vou contar final e tudo a que tenho direito. A história é basicamente esta: um casal se encanta, se apaixona e tal, porém no dia seguinte devem se separar e seguir seus destinos. Porém, o sentimento que os une é algo forte demais e... blá. Durante 20 anos são mostrados flashes da vida dos dois que, embora nitidamente se amem, não formam o casal tão esperado. Ele vive envolto em mulheres e leva aquela típica vida do jovem do cinema americano, já ela leva a pacata vida sem graça das mocinhas americanas e, ao melhor estilo Anne Hathaway, passa boa parte do filme mal arrumada, desleixada com o visual para só depois mostrar sua beleza peculiar. Mas o que me chamava atenção vendo o filme, era como em 20 anos a personagem da Anne não consegue se juntar com a personagem do Jim. E eles se amam. Nitidamente. Sem sombra de dúvidas. Mas não ficam juntos. Porque em vinte anos, um não consegue ser o que o outro quer. Ele procura em outras - várias - o que queria nela e ela vai morar com um cara nojento e fracassado que nem de longe era o que ela amava, mas talvez tivesse o que ela queria em um homem.
Tenho dado um tempo aqui no blog para trabalhar no livro de contos que inventei de montar, mas, ao ver "Um Dia", não resisti. É que... é até difícil pensar e escrever isto, mas: já aconteceu com vocês de passar a vida inteira tentando ser perfeito para alguém e não conseguir? Tipo, não conseguir nunca? É se mudar e se moldar o tempo inteiro para uma só pessoa no mundo e isso não funcionar. Nunca. É jogar uma vida inteira fora tentando desenterrar um tesouro que parece já ser seu. Doía ver a personagem da Anne, Emma, tão ouvinte, tão paciente, tão "ali" para aquele cara, se moldando, se esforçando e, de repente, olha ele lá, casando e tendo filhos com alguém que nem em um ano faria o que ela fez por ele em um dia. Doía porque eu sei o que é. E me vi ali numa versão mais bonita, mais rica, mais magra e melhor maquiada. Sei o que é se fazer presente o tempo inteiro, corpo, alma, coração e, mesmo assim, não ser vista. Sei o quanto é suado, o quanto é nervoso, o quanto é complicado. Tentar o tempo todo adivinhar quais são as cores, os gestos, as palavras e, de repente, chegar alguém e sem o menor esforço, num estalar de dedos, consegue. Toma, conquista e leva.
Mas nem tudo estava perdido - no filme. Há um momento no meio dos 20 anos em que eles ficam juntos. Sim! Resolvem se aceitar em defeitos e qualidades e ver que o melhor deles é um para o outro. Primeiro: é um filme. De romance. Segundo: é a Anne Hathaway e tá para nascer o diretor que vai acabar um filme sem dar um homem para ela. Então, o esperado final feliz aparentemente chegava. Mas ela morre. Atropelada. E é por isso que eu não ando de bicicleta.
Ela morrer é uma droga, do ponto de vista da fã que aqui vos fala. Mas... o lado blogueira admite: ela morrer foi ótimo. Me dá uma tranquilidade cômoda, é uma dose de realidade. Anne ao menos passou umas duas cenas com Jim. E eu nem isso. Porque todo e qualquer esforço tem sido inútil. Como dizia Florbela em seus sonetos: Ah, como é vão!
Já fui não sei quantas eu de mim mesma e nenhuma delas agradou e nunca agradará e a parte mais amargurada de mim é a que vê alguém chegar e levar, sem entrada, sem juros e com IPI reduzido. Nunca ser a pessoa perfeita e nem chegar perto disso... dá vontade de chorar. Mas não tenho chorado. Aliás, faz tempo que eu não choro. Eu tenho sido meu próprio divã e há dias quando me olho no espelho vejo uma diferença enorme. Consegui implantar a frieza que sempre quis, consegui revestir o coração, segurar o dedinho na hora de querer mandar mensagem, segurar as palavras ao querer remeter cartas. Consegui diminuir meu grau de sensibilidade e me distrair com um pouco mais de futilidade. Tô trazendo a humanidade mais crua para minha vida. O tão famoso pão e circo romano. Talvez isso também justifique a ausência de textos aqui. A inspiração não é mais tão frequente, já que minha maior inspiração era o amor e não tenho amado tanto. Não mais. Enjoei. Me podei quase que por inteiro, porque em 21 anos não lembro de um dia em que amar valeu a pena. Só me rendeu textos. Para os outros. Agora os outros que amem e escrevam, eu quero é dar um bom mergulho no mar, ver o vôlei, o futebol, dançar e dormir até mais tarde, não quero fazer como Rimbaud e Verlaine que só quando descobriram que se destruíram é que foram exclamar: "Que se dane a poesia! Que se dane a glória!" Não sei esperar me acabar, que se danem agora. A poesia, o amor. Danem-se.
Esse filme me alertou. Muita gente deve ter saído do cinema apaixonada e querendo não perder mais tempo e ligar para os grandes amores de suas vidas. Eu não. Levantei do sofá convicta de que eu não sou o amor da vida do amor da minha vida. E mais: levantei do sofá lembrando como eu passei praticamente toda a minha vida tentando ser ideal para alguém que nunca, nunca, nunca, nunca.. tá. Alguém que já é de alguém. De alguém que nunca fez metade, um terço, do que eu fiz. Fazer o quê? Desistir. E tenho forças, sou uma massa de modelar. Ao amor da minha vida, a melhor frase do filme: Eu te amo, mas não gosto mais de você.