Pouso

Pousei por livre vontade
na palma da sua mão
E agora você decide
se é liberdade ou prisão.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Movimento anti-modinha

Atenção você que foge das modinhas como dinheiro foge da mão. Não se iluda. De um jeito ou de outro, meu caro, minha cara, você é um ser humano na moda, em algum tipo de moda. Se todo o seu pânico está em não estar junto à multidão, lamento, você está em alguma multidão. Bem no meio, porque você com toda essa inteligência e essa capacidade de não se misturar com a gentalha, não toma a frente, nem encerra nenhum movimento, você está bem no meio.
Digo isso, porque assistindo ao Fantástico (sabia que isso não ia prestar), vi – entre mães orientais e uma atriz pelada na internet – um caso de uma moça que sofria bullying na faculdade por ser fã de Luan Santana. Não quero enfatizar a palavra “fã”, nem o nome do Luan Santana, acho que o problema está mais na relação “bullying-faculdade”. Não é bizarro? Um lugar que abriga diversos tipos de ideologias, estilos, cabeças e mundos, estar inserido em uma coisa tão ensino fundamental.
Às vezes, fico bem preocupada com essas pessoas que se incomodam tanto com o gosto dos outros. De um modo geral: gosto filosófico, religioso, musical. Na cabeça desses intelectuais que agridem uma pessoa por ela ter determinadas preferências musicais, essa cidadã deve ser excluída do mundo porque ela faz parte das ... modinhas. Só que. Vou desafiar essas pessoas tão imunes à contaminação do Ai Se Eu Te Pego, tão vacinadas contra o rock colorido, tão convictas de sua formação intelectual, a me explicar quantas delas há no mundo. Sim, porque me parece que se vestir de preto e fazer solos de guitarra não é muito original, milhões e milhões de pessoas no MUNDO fazem por aí: modinha mundial. Fumar maconha, tomar vodka pura, se reunir para falar mal da música brasileira, fazer uma tatuagem... modinha. Falar mal do Neymar: modinha. Dizer que Luan Santana é vesgo e que Claudia Leitte imita Ivete: modinha. Colocar frases de Renato Russo e dizer que ele é genial... Ah, pedir que Deus mande Mamonas Assassinas de volta e leve Restart, mo-di-nha. Vocês, alérgicos a modinhas, entram em mais modinhas do que imaginam. Suas roupas são modinhas, suas tentativas de ser originais são modinhas, seus cortes de cabelo são modinha, as músicas que vocês ouvem são modinha também. E o pior: seus discursos. Seus discursos são a modinha mais clichê e burra de todas as modinhas. No tal caso, do tal bullying, o agressor dizia que a moça estava brigando por alguém que nem sabe que ela existe... fiquei pensando se aquele filósofo, intelectual, tão imune ao fanatismo não conseguia perceber que o que ele estava atingindo não era o artista, era o gosto de alguém. Aprendam: não se pode, em hipótese nenhuma, criticar o gosto de alguém, suas preferências. Gostar é algo muito íntimo, ninguém deve invadir o íntimo de alguém sem permissão.
Fiquei traçando o perfil daquela criatura. Aposto que ele não gosta de filmes brasileiros, porque a geração é a mesma, a geração “anti-modinha” que é mais modinha que qualquer outra, porque na tentativa de criar personalidade, só repete o mesmo discurso clichê de sempre. Há quantos milênios a frase “ser fã de alguém que nem sabe que você existe...” circula por todo o planeta? Que coisa velha, que coisa sem personalidade, sem criatividade. Que incapacidade de argumentação. Eu esperava mais da geração anti-modinha. Eles prometeram mais. Achei que eles seriam gênios da música, mas eles não compõem nada interessante, nem inventam novos solos na guitarra, só reproduzem os velhos. Achei que o rapazinho que atirou uma pedra no músico do Restart ia postar um vídeo no youtube mostrando como se faz música de verdade. Só que depois percebi que ele também não sabe. Talvez ele nem saiba que nos anos 80, uma banda também trouxe cor pro rock e que o nome dessa banda era Blitz e que eles fizeram história na música brasileira e que os queridos Mamonas Assassinas que todo mundo ama e respeita tinham um estilo bem parecido de vestimenta. E o Dinho OuroROCKÉPreto? Então o que o Cazuza fez no Rock in Rio de blusa roxa e fita vermelha na testa não foi rock? Vocês, tão contra o racismo, tão contra a homofobia, tão a favor das liberdades, rotulam música por cor? Achei que a geração anti-modinha, que não lê Crepúsculo, lia pelo menos um Nietzche por mês, que sabiam de cor a biografia de Saramago, que conheciam todo o pensamento socrático. Mas não. Eles estão lendo o que as livrarias propõem na estante ou o que todos os seus companheiros de anti-modinha leem. Eles não veem novela, mas acompanham toda a sorte de seriados internacionais possíveis. Tão original. E o argumento deles será sempre: Gosto de seriados internacionais. Não tem nada a ver com os outros, é porque eu gosto e pronto. Pois, para mim, o recado é simples: guarde esse “eu gosto e pronto” e usem quando o assunto for os outros. Os outros também gostam e pronto. Não é sensacional?É uma geração que vem num Titanic, “remando contra a maré”. E eles vão encontrar um iceberg chamado respeito ao próximo, e não vão saber desviar. E vão se quebrar ao meio, morrer afogados, congelados, bem rock and roll e hollywoodiano. Essa onda de “os meus ídolos são melhores que os seus” é tão século dezenove. É o mesmo que esse povo que fica se matando para ver quem tem o melhor time. Ai, gente, vocês são tão infelizes.

sábado, 11 de agosto de 2012

Desmudando

Quando a gente perde o fio da meada da vida, a ponta do durex... passa do ponto, queima... estraga tudo  ou está prestes a. Qual é a hora exata? Tô procurando... é árduo. O que eu queria mesmo era saber onde eu deixei meu gosto por minhas pequenas coisinhas. Eu gostava de dançar, de encenar, gostava de tocar, de estudar, de sair e sorrir. Aliás, ainda gosto! E é isso que me incomoda. Nessas tentativas sucessivas de mudar e esse pensamento forte, essa coisa obsessiva... essa brincadeira acabou dando certo. De tanto tentar mudar, mudei. E me arrependi. E agora quero desmudar. Perdi a doçura. Perdi o tempo do abraço que lembro que, aos 16, na escola, era o preferido da sala inteira. Perdi alguma coisa no olhar também que havia durado até a faculdade, o pessoal gostava. Perdi o afeto gratuito pelas pessoas: sempre fui de escrever carta sem motivo, dar presente, oferecer minhas coisas, fazer favores, abraçar apertado, encher de beijo. Parei. Não consigo mais. Tive motivos, nem todo mundo entendia e foram muito duros comigo. Tanto, tanto que machucou e aí fui obrigada a me proteger. Devagarzinho fui aprendendo a desamolecer. Eu me sentia melhor quando conseguia mandar carta sem motivo e fazer visitas surpreendentes. Inventei de querer agradar aos outros e me perdi. 
Agora pra me achar de novo tá difícil. Rezo para ter me escondido e não ter me matado. Sabe aquele parente que saiu pra comprar pão há quinze anos e nunca mais voltou? Que a família inteira ainda mantém a esperança de encontrar vivo, embora a lógica diga que ele está morto? Então, sou minha família esperançosa. Sou aquela que não quer ouvir a lógica. Eu não morri, só estou desaparecida. 
Uma necessidade enorme de mim ressurgiu. Os outros que fiquem desagradados. Eu é que não posso me desfazer de mim, ora essa. Caiu a ficha. Não tá hora de subirem os créditos, porque minha história chegou no clímax agora. Que nem no filme novo do Batman, que todo mundo pensa que ele morreu e ele aparece lindo e barbeado jantando com a Anne Hathaway. 
Pois então, vou acertar os pontos da minha vida, colocar os pingos que eu tirei dos meus is. Não serei bruta como os brutos que me machucaram, vou consertar minhas asinhas e procurar gente com a asinha quebrada pra ajudar a consertar. 
Meu Deus, escrever me liberta. Abri o caderno morta e termino este texto viva, vivíssima, cheia de esperança, cheia de mim de novo. Escrever me arruma todas as chaves e me tira as correntes, lasca os cadeados. Deus foi esperto... me fez perder tudo, menos a vontade de escrever, pois sabia que, escrevendo, eu acharia tudo de novo. Agradecida.