Pouso

Pousei por livre vontade
na palma da sua mão
E agora você decide
se é liberdade ou prisão.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Eis o mistério da fé

Um enigma que sempre rodeou a vida humana foi o divino. Desde a Antiguidade, com a cultura politeísta, até a primazia ocidental monoteísta, a crença de haver uma (ou várias) entidade superior a governar e interceder pela humanidade é majoritária.
É certo também que a religião por longo tempo ditou as regras de conduta da sociedade mundial e no Brasil não seria diferente. Vivemos constitucionalmente num Estado Laico.
Entretanto, elegemos em nossas bancadas parlamentares líderes religiosos que mal conseguem distinguir sua crença de sua função enquanto legisladores. Não vamos, porém, questionar a laicidade da República Federativa do Brasil.
O que se propõe descobrir aqui é a verdadeira intenção e o verdadeiro fundamento da religião para o brasileiro (ou até mesmo para o ser humano). É comum ouvirmos ser a prática religiosa uma prática de fraternidade, de caridade. A Igreja, enquanto instituição, estaria aliada à sociedade para envolvê-la em amor e caridade em nome do Cristo, aquele que desprezava a riqueza e condenava aqueles que faziam da fé uma mercadoria.
Mas como compreender a divergência entre discurso e prática? Se o que se pretende seguir é a palavra de um representante legítimo do Deus em que se crê, como explicar os milhões gastos no Vaticano para que se mantenha um líder em meio a luxuosos aposentos?
Em se tratando de Brasil, a discrepância entre a humildade e a abdicação da riqueza pregadas e o Capitalismo que nortea a fé é nítida e, arrisco mais, é incômoda. Há padres e pastores, por exemplo, que se utilizam de shows, CDs e livros vendidos à população no que parece ser a pura contradição da “palavra de Deus”, que foi levada gratuitamente.
Padres sertanejos, que arrecadam por show R$30 mil, livros que somam R$479 milhões por ano, um mercado que, segundo pesquisa feita na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), movimentou cerca de R$12 bilhões em 2012. É um nicho de um produto que não deveria estar nas vitrines.
Vale lembrar que sistema vigente é capitalista e não se pretende aqui defender que se trabalhe de graça em nome de Deus. O que se questiona é até onde se mercantilizam discursos que não correspondem a ações. E mais: pergunta-se se o dinheiro arrecadado por padres e pastores não seria melhor empregado na função social assistencial das igrejas e não na construção de prédios exageradamente luxuosos, verdadeiros palácios, e na manutenção da imagem (leia-se vestuário, mídia, transporte) dos popstars da fé.
Em visita ao site da Jornada Mundial da Juventude, que está ocorrendo no Brasil neste ano de 2013, encontram-se os produtos do evento. São camisas, CDs, almofadas e até mesmo joias. É de se estranhar que uma religião que segue os ensinamentos de um homem que foi, por toda sua vida, contrário à riqueza correspondente ao dinheiro, mantenha laços tão fortes com o Capitalismo e com a movimentação de capital.
Enquanto isso, brasileiros vivem em situações precárias pelas ruas, sem teto, sem alimentação, sem abrigo. Não se quer aqui ser hipócrita e atribuir à Igreja (seja lá de qual ordem for) a obrigação de sanar as desigualdades sociais do país ou a miséria nacional, mas se cobra sim a explicação da omissão de religiosos que dizem estar cumprindo sua missão endeusando sua imagem pessoal, fazendo-se seguir (e ainda cobrando por isso), deixando de lado a verdadeira missão, que seria a cooperação social, a fraternidade e a caridade.
É certo que cada um de nós, como cidadãos, deveríamos estar exercitando nossa caridade e olhar em relação ao próximo, mas, numa instituição tão influente como é a religião, não se pode fechar os olhos e minimizar as cobranças.
Que se façam os eventos, que se façam as canções, que se escrevam os livros, mas está aí a verdadeira importância desses meios de comunicação? O significado da Jornada Mundial da Juventude está contado numa moeda de ouro no valor de R$16 mil? Numa camisa de R$42,90? Para quê estão se reunindo jovens de todo o mundo? Para movimentar o mercado do Turismo? Para que se faz religião no Brasil? Para quem? São indagações misteriosas e preocupantes quando ouvimos o presidente da comissão de Direitos Humanos dizer publicamente que a Igreja tem que se levantar, porque o país está diante de um ativismo satânico. A preocupação está em saber que Igreja se levantará: a que reúne pessoas em cultos para disseminar a intolerância e praticar crimes desumanos em nome de Deus? A que apresenta padres em palcos com camisas de gola clerical, calças jeans justas e caros relógios Bulgari nos pulsos?
É tempo de repensar os mistérios da fé. Até que ponto pode-se permitir que pessoas sejam levadas a uma cegueira perigosa, a que ponto confundem-se disseminação da “Palavra de Deus” e movimentação de mercado. Tempo de avaliar quanto custa a arte de viver da fé (só não se sabe fé em quê.)

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