Pouso

Pousei por livre vontade
na palma da sua mão
E agora você decide
se é liberdade ou prisão.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Menos perigosos

Anúncios exigem que eu almeje o que não quero. Firme e decididamente ensaio variadas vontades (que quase sempre passam). Permito, consinto e tenho a intenção de mais rápido ter tudo que listaram para mim quando vou ao mercado, quando ando na rua, quando já me desconvenceram de mim. Comigo me exijo, me ordeno, me firo, me obrigo, me desfiguro. Em nome de quê?
A vontade da lagarta é ser borboleta ou é apenas voar? Quem nos criou foi mesmo a coisa (consigo mesma) ou foi a palavra que o tempo soprou? Feita de mil moléculas que de quando em quando se modificam: quando o vento me enxuga o suor, quando a chuva desaba sem nem caber mais, quando o mar dá sucessivas pancadas na minha cara e martela aquilo que sei bem o que é em mim, mas não posso explicar. Quando da planta do pé sai o sangue que um prego enferrujado fez minar. Quando dói.
Cada um vive – como quem quer, mas não querendo – com seu guia vital customizado, cuspindo com certa violência leis que não morreram com quem as inventou de sua própria cabeça confusa – caixa de razão invisível. A única sorte é não ser mais organismo vivo.

Enquanto isso, o livre perpétuo fica exilado. E me entregam rezas num flaconete, para que em vez de entender eu tenha que aceitar. Medicam-me pelos ouvidos para me curar de doenças que não tenho. Para que, doutrinados, fiquemos menos perigosos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Manifesto pela originalidade

Querem me doutrinar. Mas como podem me arrebanhar, se tudo que quero ser é apenas o que vi, o que li e o que já nasci sendo?
Criticam o meu lugar. Mas não podem dizer que ele não existe. Meu lugar existe e nele estou, dele falando. Entram, saem, turistam em meu lugar e se compadecem dele. Não deviam. Ninguém quer a piedade de gente que não transita, não entende e tem um medo vagabundo do que não é sua própria cara, sua própria alma, seu chão de areia medíocre. Gente que só concorda com as concordâncias e só discorda das discordâncias.
Não me farão uma cópia. Estou em eterna construção. Cada parte de mim, imperfeita, inacabada, não será trancada com a fórmula da Coca-Cola. Não podem me comercializar, pois o que há em mim que pensa não é debitável, creditável. Não podem me parcelar.
Querem me engarrafar. Hoje em dois litros, amanhã em um só, e eu nunca derramo.
Querem dizer que estou certa, que estou errada, que posso melhorar nisso, naquilo e no outro também. Como podem me dar as certezas e as dúvidas, se não respondem às perguntas que fazem a si mesmos? Por que esperam minhas melhoras, se tudo o que há de pior em mim significa tanto eu quanto o melhor de mim? Se eu não for pior, estarei presa perpetuamente. Se eu não estiver errada, eu vou ser a caneta bic nas mãos de alguém que pensa. Do meu olhar nasce o meu erro, que vai ser menos errante quando eu piscar os olhos e vai ser mais dúbio quando eu dormir e vai ser mais conflitante quando eu acordar.
E assim você me olha e me acha um erro e eu te olho vendo outro erro e somos um espelho de erros. E existindo vão o meu e o seu lugares, certos como o socialismo chinês e como a democracia no Brasil.
Querem me convencer. Não me convenço. De nada. Nunca. Ninguém me coloniza e eu também não colonizo ninguém. O silêncio adiante. É no meio do caminho que há a pedra, na qual todos tropeçamos porque mimetizamos demais o caminho.
Liberdade, se você existisse.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Hoje é o tempo do menino

Hoje é o tempo do menino.

Branco é o futuro,
como o primeiro gosto de humanidade.

Breve é o berço,
como os primeiros danos.

Leve é a alma,
como os pueris sonos.

Do menino
o relógio é ainda vazio.

O tempo somente promete:
hoje, branco, breve, leve.